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Após um período de férias e o retiro do início do semestre, vamos aos poucos retomando nossas publicações.

Confiando no Bom Pastor, nosso caminho vai se ajustando…

Deus nos abençoe. Pax et bonum!

Rafael Rocha.

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Nossa vida: um tempo feito de tempos…

“Tudo tem seu tempo. Há um momento oportuno para tudo o que acontece debaixo do céu. Tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de colher a planta. Tempo de matar e tempo de salvar; tempo de destruir e tempo de construir. Tempo de chorar e tempo de rir; tempo de lamentar e tempo de dançar. Tempo de atirar pedras e tempo de as amontoar; tempo de abraçar e tempo de separar. Tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de esbanjar. Tempo de rasgar e tempo de costurar; tempo de calar e tempo de falar. Tempo de amar e tempo de odiar; tempo de guerra e tempo de paz.

Que proveito tira o trabalhador de seu esforço? Observei a tarefa que Deus impôs aos homens, para que nela se ocupassem. As coisas que ele fez são todas boas no tempo oportuno. Além disso, ele dispôs que fossem permanentes; no entanto o homem jamais chega a conhecer o princípio e o fim da ação que Deus realiza” (Ecl 3,1-11).

Que significam estas palavras?
O Autor sagrado, de coração apertado, procura o sentido das coisas e da própria vida… Ele observa que nossa existência é feita de tempos: nascimento e morte, sorriso e pranto, paz e conflito, chegada e partida, princípio e fim… Tudo tão passageiro, tão vaidade…

Mas, o Eclesiastes tira lições preciosas de tudo isto:

(1) Se tudo passa, devemos aprender a enfrentar tudo sem absolutizar nada: na tristeza, lembremo-nos que depois vem a alegria; na alegria, recordemo-nos que mais adiante toparemos com a tristeza; na fartura preparamo-nos para os momentos de penúria e, na penúria não percamos a esperança e a força: virá um dia a fartura… Assim, nem nos iludiremos, bêbados de saciedade, nem nos desesperaremos sobrecarregados pelos pesos da existência humana.

(2) O Autor sagrado também admite e diz claramente que as várias situações da existência nunca serão totalmente compreendidas por nós: “O homem jamais chega a conhecer o princípio e o fim da ação que Deus realiza.” São tantas perguntas: Por que aconteceu isto? Por que sou assim? Por que as coisas são assim? Por que Deus age desse modo? Perguntas, perguntas, perguntas… Vislumbramos pontinhas de respostas, mas nunca nos apropriaremos do mistério da vida e da existência de modo total e pleno…

(3) Então, o Autor sagrado dá um passo a mais, um salto na fé: sem compreender direito o como, o modo, ele afirma com serenidade e confiança segura: “Observei a tarefa que Deus impôs aos homens, para que nela se ocupassem. As coisas que ele fez são todas boas no tempo oportuno”. Em outras palavras: há um desígnio, uma sabedoria de Deus por trás de tudo quanto existe e quanto nos acontece! Ainda que na vida haja escuridões e dores, ainda que nem tudo possa ser explicado, ainda que a existência seja um mistério, ainda assim, temos certeza de que tudo vem das mãos de Deus e tudo é radicalmente bom, pois em última análise, Deus sabe tirar o bem até dos males!

Autor: Dom Henrique Soares da Costa, bispo de Palmares-PE.

Liturgia e Vida Cotidiana

Texto extraído da página “Vida Celebrada – Formação Litúrgico – Catequética”, da rede social Facebook em 22-01-2018.

Como que a liturgia está relacionada com a vida? Nós podemos discutir esta questão prestando atenção nos substantivos: O que é liturgia? O que é vida? Em vez disso eu gostaria de prestar atenção na conjunção: O que estamos dizendo quando falamos sobre liturgia “e” vida?

O “e” sugere que estamos falando sobre domínios distintos, atividades, ou esferas que de alguma maneira precisam ser integradas. Mas isso é verdade? Liturgia e vida são coisas distintas que precisam se unir? Estaria a vida aqui, a liturgia lá, de tal forma que devemos introduzi-las na esperança de que elas se deem bem?

Seria uma o subconjunto da outra? Devemos dizer, Tudo é vida, e a liturgia é uma das coisas que fazemos na vida. Ou devemos dizer o contrário, que tudo é liturgia, e que a vida é o que fazemos liturgicamente? Ou são duas dimensões da mesma coisa, de uma realidade?

Suspeito que o “e” nos leva para a primeira tentativa, a de tomar a liturgia e a vida como domínios distintos ou conjuntos de atividades que precisam de integração. E estou certo que muito dos nossos problemas em compreender a liturgia surgem da concepção inicial dualista da vida “e” liturgia, a noção de que a liturgia é algo separado que fazemos num dia separado, Domingo, uma ilha de atividade santificada numa triste paisagem não santificada. E a vida é o que fazemos nos dias que não são separados.

Este é o cenário pressuposto quando nos perguntamos se a liturgia tem algum valor “prático”. Perguntamos para entender como a liturgia — atividade do Domingo — se aplica à realidade distinta da vida — as atividades dos outros dias.

Diante as coisas, este é um jeito estranho de olhar para a questão. A adoração cristã é, afinal de contas, impregnada por objetos e ações que são coisas da vida exterior ao culto.

O culto é linguagem. Uma liturgia começa com invocação, inclui orações de resposta, leitura das Escrituras, ensino e pregação. Está infundido com linguagem do começo ao fim.

A linguagem litúrgica tem algumas características únicas. Algumas palavras e movimentos da frase litúrgica não são comuns fora da liturgia. Ainda assim é a mesma linguagem, e para muitos cristãos é a linguagem da vida diária. (A Missa Latina exemplifica a tendência contrária, enfatizando o “e” que separa a liturgia e a vida.)

Sobre o que falamos? Confessamos nossos pecados. No Credo, falamos sobre Deus, Jesus e história. Ouvimos sobre todo tipo de coisa na leitura e pregação das Escrituras. Oramos sobre doença e saúde, política e dificuldades econômicas, perseguição e guerra. O mundo inteiro entra na liturgia através da nossa linguagem.

A linguagem não é acidental ou descartável. Se a vida não entrasse na liturgia em nossa linguagem, não existiria liturgia, ou seria uma liturgia muito defeituosa. Se não falássemos sobre as Escrituras ou orássemos por necessidades do mundo real, não teríamos nenhum culto de verdade.

O culto inclui as artes. Nós cantamos. Frequentemente, as congregações cultuam em espaços adornados com vitrais, murais, padrões decorativos no chão e no teto. Muito da arte ocidental foi feita especialmente para a liturgia — composições para cantar, arquitetura para os espaços de culto, pinturas e esculturas para glorificar esses espaços.

Nós trazemos nosso dinheiro. Há uma linha de opiniões que veem a oferta como uma violação da santidade do culto, mas isso é um bom indicador se de fato estamos pensando sobre liturgia e vida da maneira adequada. A nossa liturgia tem espaço para ofertas monetárias ou de alguma outra coisa de valor, ou o dinheiro é visto puramente como secular, completamente fora da liturgia? Rejeitar o ofertório para proteger a santidade do culto é um outro jeito de enfatizar o “e” que mantém a vida e a liturgia seguramente separadas.

Nós comemos e bebemos. Alexander Schmemann comenta o fato de que beber e comer traz o mundo inteiro pra dentro da liturgia, uma economia inteira de produção e distribuição de grãos e uvas, a realidade da fome e do uso justo dos recursos. Há um mundo [inteiro] no pedaço de pão, e no nosso comer juntos na presença de Deus.

As liturgias bíblicas exibem essas mesmas características. O tabernáculo e o templo eram produções artísticas cheias de produções artísticas. Os israelitas traziam a produção de seus campos e seus animas para oferecerem no altar. Em vários pontos na história de Israel, o povo trazia tributos de ouro e prata para o templo. Davi organizou a produção inteira de Israel ao redor da manutenção do templo e do culto no templo (1 Crônicas 22–29).

O todo da vida humana é trazido para dentro da liturgia, em parte para afirmar a bondade de todas as coisas. Na liturgia, nós reconhecemos que todas as coisas vêm como dádivas de Deus, e através da nossa adoração toda a vida é cheia da glória de Deus e de ação de graças do povo de Deus.

A vida também entra na liturgia para ser julgada, purificada, renovada. Trazemos a linguagem para a presença de Deus para que a nossa linguagem possa ser transformada em seu uso adequado: confissão, perdão, oração, louvor e ação de graças. Falando, cantando, orando e ouvindo a palavra de Deus julga a nossa linguagem.

Clive James disse que a Bíblia é essencial para nos proteger da ideologia, do jargão, das teorias na moda. Ela atravessa nossas escuridões e distorções de linguagem e mantém nossa linguagem honesta.

A oferta litúrgica afirma que o nosso dinheiro e nossos bens são bens. São ofertas aceitáveis para Deus. Ele não despreza nossas dádivas. Mas essa afirmação tem um lado crítico também. Ao oferecer nossos bens em adoração, confessamos que não temos nada que não tenhamos recebido. Reconhecemos que o dinheiro não é Deus, mas de Deus. Enquanto reconhecemos que somos mordomos dos dons de Deus, passamos por julgamento pela nossa ganância, que é idolatria de Mamom.

O nosso comer e beber na mesa do Senhor revela o verdadeiro significado de comer e beber. A Eucaristia afirma a bondade da criação, a criação que é dada para tornar-se nós, para entrar em nós mesmos e nos oferecer como sacrifício vivo. O beber e comer é a nossa primeira experiência de graça, o dom da criação, da bondade e da alegria e do sabor do mundo que Deus fez.

O comer e beber eucarístico também traz nosso comer e beber debaixo de julgamento. Paulo disse que nós devemos discernir o corpo, reconhecer o outro, compartilhar, submeter-nos enquanto comemos; caso contrário, comemos e bebemos julgamento para nós mesmos. A Eucaristia julga nosso modo egoísta de comer e beber, nossa recusa a compartilhar o pão, nossa glutonaria que cria um deus do nosso ventre. Na Eucaristia somos incorporados em Jesus, Aquele que deu Sua vida para alimentar os outros.

A liturgia nos disciplina num descolamento desse mundo de forma adequada, um reconhecimento devido dos limites desse mundo e um distanciamento das idolatrias do mundo. E esse descolamento litúrgico do mundo é a única base para um mundanismo adequado. A vida entra na liturgia para que a vida possa se tornar litúrgica. Nós oferecemos um sacrifício de louvor para que as nossas vidas sejam permeadas com sacrifício.

Então, não “liturgia e vida.” Antes, liturgia e vida coabitando entre si, num ritmo pericorético. Portanto: “vida na liturgia” para que possamos viver a “liturgia na vida” e a “liturgia da vida.”

Autor: Peter J. Leithart
Tradução: Felipe Felix
Revisão: Daniel Vieira
Texto Original: Liturgy and Life

 

Liturgia: sinal de esperança na vida do povo

Texto extraído da página “Vida Celebrada – Formação Litúrgico – Catequética”, da rede social Facebook em 22-01-2018.

No silêncio de uma terra vermelha, 
manifesta-se o Deus de Israel – Esperança 
viva de libertação.

Alguns dias atrás pude fazer algumas experiências magníficas: dentre elas, uma na Prelazia de São Félix do Araguaia. Foram momentos surpreendentes – surpresas de Deus – que cravaram em mim uma ponta de Esperança. Esperança que vai além de uma crença emocional de possibilidades. Neste caso, uma esperança se aproxima muito da fé, é o acreditar no indizível que se faz presente no sensível, verdade divina na vida do povo. É no sabor destas vivências que gostaria de escrever sobre Liturgia.

…a liturgia possibilita viver a própria vida na Vida Divina que é atualizada em nossas celebrações[2].

A vida cristã tem como fonte a Sagrada Liturgia[1], não simplesmente como algo que sustenta a vida, mas como ápice, ou seja, cume desta vida cristã. É cume porque a existência é um caminho progressivo à plena comunhão com Deus. Por isso, a liturgia possibilita viver a própria vida na Vida Divina que é atualizada em nossas celebrações[2]. Tudo isso se dá na vida, prolongando na história o grande memorial do Senhor.

Antes de chegar à Prelazia de São Félix do Araguaia, uma pessoa me escreveu dizendo que a “Prelazia tem uma história que difere das outras Igrejas. Dizem que ela começou do avesso. Antes das igrejas, as escolas; antes dos padres, o povo, a política; antes de tudo, a vida; paralelo à fé, a luta pela terra e pela dignidade; paralelo à eucaristia, a luta pelo pão de cada dia”. Confesso, achei interessante, até considerei algo parecido como “serviço do povo” – uma liturgia.

Até então as coisas faziam muito sentido, pois era como se concretizasse uma parte da Oração do Senhor – “O Pão nosso de cada dia nos dai hoje…”. Um Pão que significa o próprio Cristo vivo no Altar, alimento espiritual e, também que significa o alimento terreno, que dá forças para o trabalho diário. Esta deve ser a compreensão de toda comunidade eclesial!

A Prelazia é marcada nacionalmente como ‘a Igreja modelo’, que tem entranhada em si o jeito de ser comunidade/Igreja. Paralelamente, lá encontrei um povo sedento de Deus, sedento de um Pastor… Liturgia também é vida em comunidade e comunidade é sinal da presença de Deus. Me perguntava: onde estava a liturgia e sua compreensão? Onde estava Deus? Onde estava a vida do povo? Era como se eu olhasse três pontos distintos.

No entanto, entre as conversas e andanças, havia algo que apresentou como elo entre toda essa realidade: a Esperança. Porém, que não anulava a realidade, mas a deixava explícita, nua e crua diante dos olhos. Então entendi que a liturgia ali acontecia enquanto esperança na vida do povo. Pois, naquela terra vermelha, Deus se manifestava e queria ser conhecido. Este é o mistério de Deus que em cada celebração se torna uma epifania divina na vida de cada cristão.

Liturgia também é esperança. Uma esperança que se faz libertação, que não tira a alegria dos olhos mesmo em meios aos sofrimentos; que não permite o verde da vida se amarelar… É força, é confiança, é fé. Mas, sem dúvida, estamos diante de uma Igreja que carece de formação. Isso nos ensina que ornamentar Igrejas, preparar leituras, ensaiar bem os cantos, entre outros, não é o principal de uma autêntica liturgia.

A liturgia não serve para encher nossos ouvidos de palavras bonitas e bem cantadas, muito menos para impregnar em nossas roupas o odor da fumaça do incenso. A liturgia serve para ser sinal latente de esperança na vida. Um sinal que impulsiona a sempre mais caminhar rumo ao Eterno, razão da nossa Esperança cristã – este é o autêntico espírito litúrgico, que manifesta com a vida o mistério divino.

Para refletir: O que é ser Igreja? A Vida está em sintonia com a Liturgia e o Ser Comunidade? Como ser sinal de esperança no mundo? Como encontrar Deus, razão de toda esperança?

Sugestão de Leitura: Gaudium et Spes – Concílio Vaticano II

Abração cheio de esperança,
Wallison Rodrigues

Fonte: site a12.com

O Ocidente: sem Cristo, na tolice e na escuridão

Texto divulgado em 19 de janeiro de 2018 por Dom Henrique Soares da Costa numa rede social.

Casualmente, vi na televisão um programa sobre a Chapada dos Viadeiros. Surpreso, fiquei sabendo de quantas pessoas vivem ali à espera de um contato com extraterrestres. Um desses devotos dos ETs vive numa verdadeira disciplina ascética, preparando-se para o encontro com os seres de outros planetas; é vegetariano, vive na pobreza e fez voto de castidade; chega mesmo a rezar para eles…

Como é louca a humanidade! Como é desorientada a nossa civilização ocidental! Primeiro, a partir do século XVIII, declaramos que o homem se tornara adulto e emancipado. Era necessário matar toda verdade religiosa e tudo quanto não coubesse na cachola miúda da razão humana. Assim, negou-se toda religião sobrenatural, toda revelação de Deus a Israel e inventou-se, no Ocidente, um deus distante, teórico, Arquiteto do Universo, distante, frio e inútil… Depois, nosso Ocidente negou Deus de vez: era preciso matar Deus – dizia-se – para que o homem vivesse de verdade. Assim, esta nossa civilização ocidental, colocou o homem no trono que pertence somente a Deus.

Esta razão endeusada e este homem no centro de tudo (na escola no ensinaram o absurdo que foi um ótimo negócio passar do teocentrismo medieval para o antropocentrismo do renascimento, como se o homem fosse Deus e Deus fosse apenas um detalhe…) levaram o Ocidente a duas guerras crudelíssimas, com mais 70 milhões de mortos… Depois das guerras (do nazismo em nome da razão, do fascismo em nome da racionalidade, do marxismo em nome da ciência e da história), veio a ressaca: não se crê mais em nada: nem no Deus revelado, nem na razão, nem nas instituições, nem nos grandes projetos…

Agora, não é mais o homem no centro; é somente o indivíduo, sozinho, fechado, egoísta, com uma ilusãozinha, uma moralzinha, um projetozinho, um deusinho segundo a sua imagem e semelhança medíocre e escrava de mil paixões…

No vazio de Deus, na negação do cristianismo, o Ocidente encontra-se perdido – alegremente perdido, bebadamente iludido e inconsciente de sua perdição! Procura-se desesperadamente encher o vazio existencial e encontrar um sentido para a vida no consumismo, no poder a qualquer custo, nas drogas, no endeusamento da natureza, no turismo desenfreado, nas seitas, na promiscuidade, na busca frenética pelo prazer e a autoafirmação… É assim: tire Deus, apague o Cristo da consciência do nosso Ocidente e fica somente o vazio, um homem infantilizado, presa das velhas práticas pré-cristãs…

Era para ser claro, palpável: sem Deus, o homem definha, o homem torna-se menos homem. Fomos, todos nós, feitos para o Infinito, para o Absolutamente Outro, o Eterno, e somente nessa abertura encontramos o Sentido, a Direção, o Eixo da nossa existência. O homem não é fruto da natureza; o homem é fruto do Autor na natureza, que nela impregna um desígnio, um sonho de amor: o homem é imagem de Deus, criado para Deus, com um coração que não se contenta com menos que Deus! Tire Deus e endeuse o que não é Deus; elimine o Deus verdadeiro e torne-se escravo de mil ídolos mentirosos!

O cristianismo, na Antiguidade, vencendo o paganismo, deu ao Ocidente a firmeza conceitual e a clareza de visão da vida e do mundo que permitiram o surgimento de uma civilização que tornou-se planetária. Esse Ocidente volta as costas para o Cristo e torna-se presa de todos os infantilismos e escravidões dos quais o cristianismo o havia libertado: desprezo pela vida humana, adoração infantilóide na natureza, falta de sentido para a existência, angústia, medo do sofrimento e da morte…

Que você, meu Amigo, tenha certeza: ainda haveremos de ver muita coisa! A tolice tem ares de sabedoria; a superstição tem pose de religião; a loucura tem fama de profunda lucidez…

Pobre homem, pobre Ocidente! Quanto precisamos de Deus; quantos temos necessidade daquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida!

Por que estou aqui?

Será que o homem é um mero acidente biológico? E o gênero humano, uma simples etapa num processo evolutivo cego e sem sentido? Será que esta vida humana não passa de uma cintilação entre a longa escuridão que precede a concepção e a escuridão eterna que virá após a morte? E eu, serei apenas um grão de poeira insignificante no universo, lançado à existência pelo poder criador de um Deus indiferente, como a casca de laranja inútil que se joga fora sem pensar? Tem a vida alguma finalidade, algum plano, algum propósito? Enfim, de onde é que eu venho? E por que estou aqui?

Estas são as questões que qualquer pessoa normal levanta quando atinge idade suficiente para pensar com certa sensatez. Por isso, o novo Catecismo da Igreja Católica propõe-nos já no seu Prólogo a questão da nossa origem e do nosso fim: “Deus, infinitamente Perfeito e Bem-aventurado em si mesmo, num desígnio de pura bondade, criou livremente o homem para fazê-lo participar da sua vida bem-aventurada”.

É, condensada ao máximo, a resposta a todas as questões que formulávamos acima, e que podem resumir-se nesta outra: “Para que nos fez Deus?”.

Ao respondermos a essa pergunta, veremos que a resposta tem duas vertentes: a de Deus e a nossa. Se a considerarmos do ponto de vista de Deus, a resposta é: Deus nos fez para mostrar a sua bondade. Uma vez que Ele é o Ser infinitamente perfeito, a principal razão pela qual faz uma coisa deve ser uma razão infinitamente perfeita. Mas só há uma razão infinitamente perfeita para se fazer uma coisa: é fazê-la por Deus. Por isso, seria indigno de Deus, contrário à sua infinita perfeição, que Ele fizesse alguma coisa por uma razão inferior a Si mesmo.

Talvez compreendamos melhor esta verdade se a aplicarmos a nós. Mesmo para nós, a maior e melhor razão para fazermos alguma coisa é fazê-la por Deus. Se faço alguma coisa por outro ser humano – por mais nobre que seja a intenção, como alimentar um faminto – e a faço especialmente por essa razão, sem me referir a Deus de alguma forma, faço algo imperfeito. Não é uma coisa má, mas é menos perfeita, e isso seria assim mesmo se fosse um anjo ou a própria Virgem Santíssima quem realizassem essa ação, se prescindissem de Deus. Não existe um motivo maior para fazer uma coisa do que fazê-la por Deus, e isso é certo tanto para o que Deus faz como para o que nós fazemos.

A primeira razão, a grande razão pela qual Deus dez o universo e nos fez a nós, foi, portanto, a sua própria glória: para mostrar o seu poder e bondade infinitos. O seu infinito poder mostra-se pelo fato de existirmos. A sua infinita bondade, pelo fato de Ele nos querer fazer participar do seu amor e felicidade. E se nos parece que Deus é egoísta por fazer as coisas para sua própria honra e glória, é porque não podemos deixar de pensar nEle em termos humanos. Pensamos em Deus como se fosse uma criatura igual a nós. Mas a verdade é que não existe nada nem ninguém que mais mereça ser objeto do pensamento de Deus ou do seu amor que o próprio Deus.

No entanto, quando dizemos que Deus fez o universo (e nos fez a nós) para a sua glória, não queremos dizer, evidentemente, que Deus necessitasse dela de algum modo. A glória que dão a Deus as obras da sua Criação é a que denominamos “glória extrínseca”: é algo “fora de Deus”, que não lhe acrescenta nada. Guardadas as devidas proporções, é como um artista com grande talento para a pintura e a mente repleta de imagens: se as projeta sobre a tela para que outros as veja e admirem, isso de certa forma não lhe acrescenta nada: não o torna melhor nem mais talentoso do que era antes.

Assim, Deus nos fez primordialmente para a sua honra e glória. Daí que a primeira resposta à pergunta: “Para que nos fez Deus:” seja: “Para mostrar a sua bondade”. Porém, a principal maneira de Deus demonstrar a sua bondade baseia-se em que nos criou com uma alma espiritual e imortal, capaz de participar da sua própria felicidade. Mesmo nos assuntos humanos, sentimos que a bondade de uma pessoa se manifesta pela generosidade com que compartilha a sua pessoa e as suas posses com outros. Da mesma maneira, a bondade divina manifesta-se sobretudo pelo fato de nos fazer participar da sua própria felicidade, de nos fazer participar de Si mesmo.

Por essa razão, ao respondermos do nosso ponto de vista à pergunta: “Para que nos fez Deus:”, dizemos que nos fez para fazer-nos participar da sua vida bem-aventurada. As duas respostas são como que as duas faces da mesma moeda, o anverso e o reverso: a bondade de Deus fez-nos participar da sua felicidade e a nossa participação na sua felicidade mostra a bondade de Deus.

Retirado do livro: “A Fé Explicada”. Leo J. Trese.

FONTE: Site da Editora Cléofas; acesso em 04/01/2018 às 13:42h.