“A multiplicação dos pães e o Reino de Deus” (Dom Henrique)

Qual o sentido do milagre da multiplicação dos pães?

Primeiramente, trata-se de um milagre, uma ação sobrenatural, messiânica do Senhor Jesus! Ação messiânica porque destinada a revelar que Jesus é o Messias e que tipo de Messias Ele é!
A narrativa é muito simples: uma multidão tinha ido a Jesus “porque tinha visto os sinais que Ele realizava nos doentes” (Jo 6,2). Jesus, “acolhendo-as, falou-lhes do Reino de Deus e aos necessitados de cura, restitui a saúde” (Lc 9,11).
“Estava próxima a Páscoa, a Festa dos judeus”: João dá esta informação para que se possa interpretar bem o sinal que Jesus irá realizar: não é partilha (absolutamente nada no texto afirma isto ou dá a entender isto; é milagre eucarístico messiânico: o pão dado por Jesus será a nova e definitiva Páscoa!

Existem alguns que querem ver como lição deste evento uma partilha: as pessoas partilham, na partilha, o pão aparece e todos ficam saciados! Não há nada disso no texto! Não é partilha nem há partilha alguma: há um milagre do Senhor e um milagre no sentido de prefigurar e preparar a Eucaristia, Páscoa dos cristãos, que supera a Páscoa dos judeus!
Há outros textos no Novo Testamento que falam de partilha; este não! Somente uma interpretação ideológica e forçada da Palavra de Deus poderia insistir aqui em partilha… Em geral, os que forçam e adulteram o milagre do Senhor referindo-se a partilha, são os mesmos que negam os milagres de Jesus… é muito triste instrumentalizar a Palavra do Senhor para espúrios propósitos ideológicos! Quanto mal já se fez com isto!

“Havia muita relva naquele lugar” (Jo 6,10) . Recorde o Salmo 23/22,1-2.5a: “O Senhor é meu pastor, nada me falta. Em verdes pastagens me faz repousar. Diante de mim preparas a mesa…” Eis o cumprimento desta Salmo em Jesus!

Agora, observe os gestos de Jesus:
toma o pão, dá graças, parte, distribui (cf. Mt 14,19: “Tomou os cinco pães, elevou os olhos ao céu e abençoou. Em seguida, partindo os pães, deu-os aos discípulos, e os discípulos às multidões”).
São os quatro gestos eucarísticos por excelência!
Observe que tais gestos estruturam a própria liturgia da Eucaristia:
tomou o pão ( = apresentação das ofertas),
deu graças ( = a oração eucarística),
partiu ( = a fração do pão no Cordeiro de Deus)
e deu aos discípulos ( = a comunhão).

Todos ficaram saciados! Jesus é maior que Eliseu (que saciou cem pessoas – cf. 2Rs 4,42s) e maior que Moisés (pois este deu o maná, enquanto Jesus vai dar-Se a Si mesmo como Pão da Vida no Pão eucarístico, prefigurado no pão multiplicado por puro dom de Deus: “É Meu Pai Quem dá o verdadeiro Pão” – Jo 6,32). Ele é aquele que sacia Israel ( = doze cestos que sobram. Doze é o número de Israel e da Igreja, novo Israel).

“Vendo o sinal que Ele fizera, aqueles homens exclamavam: ‘Esse é verdadeiramente o Profeta que deve vir ao mundo'” (Jo 6,14). Extasiado, o povo reconhece que Jesus é o Profeta prometido em Dt 18,15.18! O povo esperava um novo Moisés. Como Moisés, Jesus faz o povo descansar num lugar deserto (cf. Mt 14,15) e o alimenta: o povo vê nele o novo Moisés prometido, o Profeta igual a Moisés, que Israel esperava (cf. Jo 1,21).

Observe o v. 15: feliz pela barriga cheia, o povo deseja fazer do Senhor Jesus um rei… Sempre a velha e renovada maldita tentação: reduzir Jesus a um líder político ou social e desfigurar Sua verdadeira missão: na força do Santo Espírito, instaurar o Reino de Deus, o Pai,
que é anunciado pela Sua vida e pregação,
mostrado efetivamente nos Seus milagres,
inaugurado na Sua santa Páscoa de morte e ressurreição,
anunciado, divulgado e tornado presente pela Igreja, na sua vida, na sua pregação e, sobretudo, nos seus sacramentos,
e consumado na Glória, quando Ele mesmo, da parte do Pai, pleno do Espírito Se manifestará em Glória.

“Jesus, sabendo que viriam buscá-Lo para fazê-Lo rei, refugiou-Se, de novo, sozinho, na montanha” (Jo 6,15). Insisto: a narrativa de João termina com uma tentação de reduzir Jesus a líder político social! Significativo, não é? 
O Senhor sempre vence esta tentação rezando: sobe a montanha e abandona-Se à vontade do Pai, o Rei, cujo Reinado Ele viera trazer! Interessante que o resolver a questão do pão, mostrar poder político e social e seguir uma lógica humana de messias foi exatamente o que o Diabo propôs a Jesus – e adulando-O com o título de “filho de Deus”. Jesus rejeitou! E continuará sempre rejeitando… Mesmo que o Diabo, pai de mentira, continue se disfarçando de amigo, de anjo de luz… (cf. Mt 4,1-11)

“Sede sóbrios e vigilantes! Eis que o vosso adversário, o Diabo, vos rodeia como leão a rugir, procurando a quem devorar!
Resisti-lhe, firmes na fé!” (1Pd 5,8)

Dom Henrique Soares da Costa, bispo de Palmares – PE.

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