Liturgia e Vida Cotidiana

Texto extraído da página “Vida Celebrada – Formação Litúrgico – Catequética”, da rede social Facebook em 22-01-2018.

Como que a liturgia está relacionada com a vida? Nós podemos discutir esta questão prestando atenção nos substantivos: O que é liturgia? O que é vida? Em vez disso eu gostaria de prestar atenção na conjunção: O que estamos dizendo quando falamos sobre liturgia “e” vida?

O “e” sugere que estamos falando sobre domínios distintos, atividades, ou esferas que de alguma maneira precisam ser integradas. Mas isso é verdade? Liturgia e vida são coisas distintas que precisam se unir? Estaria a vida aqui, a liturgia lá, de tal forma que devemos introduzi-las na esperança de que elas se deem bem?

Seria uma o subconjunto da outra? Devemos dizer, Tudo é vida, e a liturgia é uma das coisas que fazemos na vida. Ou devemos dizer o contrário, que tudo é liturgia, e que a vida é o que fazemos liturgicamente? Ou são duas dimensões da mesma coisa, de uma realidade?

Suspeito que o “e” nos leva para a primeira tentativa, a de tomar a liturgia e a vida como domínios distintos ou conjuntos de atividades que precisam de integração. E estou certo que muito dos nossos problemas em compreender a liturgia surgem da concepção inicial dualista da vida “e” liturgia, a noção de que a liturgia é algo separado que fazemos num dia separado, Domingo, uma ilha de atividade santificada numa triste paisagem não santificada. E a vida é o que fazemos nos dias que não são separados.

Este é o cenário pressuposto quando nos perguntamos se a liturgia tem algum valor “prático”. Perguntamos para entender como a liturgia — atividade do Domingo — se aplica à realidade distinta da vida — as atividades dos outros dias.

Diante as coisas, este é um jeito estranho de olhar para a questão. A adoração cristã é, afinal de contas, impregnada por objetos e ações que são coisas da vida exterior ao culto.

O culto é linguagem. Uma liturgia começa com invocação, inclui orações de resposta, leitura das Escrituras, ensino e pregação. Está infundido com linguagem do começo ao fim.

A linguagem litúrgica tem algumas características únicas. Algumas palavras e movimentos da frase litúrgica não são comuns fora da liturgia. Ainda assim é a mesma linguagem, e para muitos cristãos é a linguagem da vida diária. (A Missa Latina exemplifica a tendência contrária, enfatizando o “e” que separa a liturgia e a vida.)

Sobre o que falamos? Confessamos nossos pecados. No Credo, falamos sobre Deus, Jesus e história. Ouvimos sobre todo tipo de coisa na leitura e pregação das Escrituras. Oramos sobre doença e saúde, política e dificuldades econômicas, perseguição e guerra. O mundo inteiro entra na liturgia através da nossa linguagem.

A linguagem não é acidental ou descartável. Se a vida não entrasse na liturgia em nossa linguagem, não existiria liturgia, ou seria uma liturgia muito defeituosa. Se não falássemos sobre as Escrituras ou orássemos por necessidades do mundo real, não teríamos nenhum culto de verdade.

O culto inclui as artes. Nós cantamos. Frequentemente, as congregações cultuam em espaços adornados com vitrais, murais, padrões decorativos no chão e no teto. Muito da arte ocidental foi feita especialmente para a liturgia — composições para cantar, arquitetura para os espaços de culto, pinturas e esculturas para glorificar esses espaços.

Nós trazemos nosso dinheiro. Há uma linha de opiniões que veem a oferta como uma violação da santidade do culto, mas isso é um bom indicador se de fato estamos pensando sobre liturgia e vida da maneira adequada. A nossa liturgia tem espaço para ofertas monetárias ou de alguma outra coisa de valor, ou o dinheiro é visto puramente como secular, completamente fora da liturgia? Rejeitar o ofertório para proteger a santidade do culto é um outro jeito de enfatizar o “e” que mantém a vida e a liturgia seguramente separadas.

Nós comemos e bebemos. Alexander Schmemann comenta o fato de que beber e comer traz o mundo inteiro pra dentro da liturgia, uma economia inteira de produção e distribuição de grãos e uvas, a realidade da fome e do uso justo dos recursos. Há um mundo [inteiro] no pedaço de pão, e no nosso comer juntos na presença de Deus.

As liturgias bíblicas exibem essas mesmas características. O tabernáculo e o templo eram produções artísticas cheias de produções artísticas. Os israelitas traziam a produção de seus campos e seus animas para oferecerem no altar. Em vários pontos na história de Israel, o povo trazia tributos de ouro e prata para o templo. Davi organizou a produção inteira de Israel ao redor da manutenção do templo e do culto no templo (1 Crônicas 22–29).

O todo da vida humana é trazido para dentro da liturgia, em parte para afirmar a bondade de todas as coisas. Na liturgia, nós reconhecemos que todas as coisas vêm como dádivas de Deus, e através da nossa adoração toda a vida é cheia da glória de Deus e de ação de graças do povo de Deus.

A vida também entra na liturgia para ser julgada, purificada, renovada. Trazemos a linguagem para a presença de Deus para que a nossa linguagem possa ser transformada em seu uso adequado: confissão, perdão, oração, louvor e ação de graças. Falando, cantando, orando e ouvindo a palavra de Deus julga a nossa linguagem.

Clive James disse que a Bíblia é essencial para nos proteger da ideologia, do jargão, das teorias na moda. Ela atravessa nossas escuridões e distorções de linguagem e mantém nossa linguagem honesta.

A oferta litúrgica afirma que o nosso dinheiro e nossos bens são bens. São ofertas aceitáveis para Deus. Ele não despreza nossas dádivas. Mas essa afirmação tem um lado crítico também. Ao oferecer nossos bens em adoração, confessamos que não temos nada que não tenhamos recebido. Reconhecemos que o dinheiro não é Deus, mas de Deus. Enquanto reconhecemos que somos mordomos dos dons de Deus, passamos por julgamento pela nossa ganância, que é idolatria de Mamom.

O nosso comer e beber na mesa do Senhor revela o verdadeiro significado de comer e beber. A Eucaristia afirma a bondade da criação, a criação que é dada para tornar-se nós, para entrar em nós mesmos e nos oferecer como sacrifício vivo. O beber e comer é a nossa primeira experiência de graça, o dom da criação, da bondade e da alegria e do sabor do mundo que Deus fez.

O comer e beber eucarístico também traz nosso comer e beber debaixo de julgamento. Paulo disse que nós devemos discernir o corpo, reconhecer o outro, compartilhar, submeter-nos enquanto comemos; caso contrário, comemos e bebemos julgamento para nós mesmos. A Eucaristia julga nosso modo egoísta de comer e beber, nossa recusa a compartilhar o pão, nossa glutonaria que cria um deus do nosso ventre. Na Eucaristia somos incorporados em Jesus, Aquele que deu Sua vida para alimentar os outros.

A liturgia nos disciplina num descolamento desse mundo de forma adequada, um reconhecimento devido dos limites desse mundo e um distanciamento das idolatrias do mundo. E esse descolamento litúrgico do mundo é a única base para um mundanismo adequado. A vida entra na liturgia para que a vida possa se tornar litúrgica. Nós oferecemos um sacrifício de louvor para que as nossas vidas sejam permeadas com sacrifício.

Então, não “liturgia e vida.” Antes, liturgia e vida coabitando entre si, num ritmo pericorético. Portanto: “vida na liturgia” para que possamos viver a “liturgia na vida” e a “liturgia da vida.”

Autor: Peter J. Leithart
Tradução: Felipe Felix
Revisão: Daniel Vieira
Texto Original: Liturgy and Life

 
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