De perseguidor a apóstolo

Celebraremos amanhã [hoje] a conversão do grande apóstolo São Paulo, uma das colunas da Igreja ao lado de São Pedro. São Paulo foi o apóstolo dos gentios, dos povos não judeus, instrumento da propagação da Igreja fora da Judéia; o verdadeiro propagador do cristianismo.

O primeiro livro de História da Igreja, os Atos dos Apóstolos, escrito por São Lucas, discípulo de São Paulo e testemunha dos fatos, narra-nos que Saulo – esse era o seu nome antes – era um fariseu fanático, cheio de ódio pelos discípulos de Cristo. Ele, quando jovem, já havia participado, como coadjuvante, do apedrejamento de Santo Estevão, diácono. Quando ia pelo caminho de Damasco, capital da Síria, com ordens dos Sumos Sacerdotes, para prender os cristãos da cidade, foi violentamente derrubado do cavalo por uma luz misteriosa, que o cegou, da qual saia uma voz tonitruante que o invectivava: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” E ao perguntar quem era aquele a quem ele perseguia, a voz respondeu: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues”. Jesus atribuía a si a perseguição feita aos seus discípulos, os cristãos.

A partir daí, Saulo foi instruído na Fé cristã e batizado. Tornou-se o grande Apóstolo Paulo, escolhido por Deus para evangelizar os gentios, os povos não judaicos. É o autor de 14 epístolas endereçadas às primeiras comunidades cristãs, mas de valor e ensinamento perenes.

Foi martirizado em Roma, na perseguição de Nero. Sua grande basílica é a homenagem cristã àquele que, com São Pedro, é uma das colunas da Igreja Romana.

Jesus tinha escolhido 12 apóstolos para evangelizarem o mundo. Mas eles eram pessoas simples. Deus tudo pode, mas usa dos meios humanos mais apropriados, conforme ele quer e capacita. Para espalhar sua doutrina no mundo greco-romano pagão, ele quis escolher alguém, perito em diversas línguas, douto na doutrina judaica, cidadão romano, conhecedor do mundo grego e homem de decisão e forte personalidade. E o escolheu entre os seus piores inimigos: os fariseus. E esse fariseu fanático tornou-se, pela graça de Deus, o grande São Paulo.

A admirável conversão de São Paulo é a mostra do que pode a Graça de Deus. E essa Graça tem operado maravilhosas conversões no decurso dos séculos. Temos, entre tantos, os exemplos de Agostinho, gênio intelectual que, de gnóstico e herege, tornou-se o grande Santo Agostinho, doutor da Igreja, convertido pela força das lágrimas de sua mãe e pela convincente pregação de Santo Ambrósio; de Francisco de Assis que, de mundano tornou-se o grande santo da pobreza; de Santo Inácio de Loyola, convertido ao ler a vida dos santos, num leito de hospital; de Dr. Aléxis Carrel, prêmio Nobel de medicina, ao examinar um milagre de Lourdes.

Conversão é a saída do pecado para a Graça de Deus. É mudança de mentalidade e de vida. Para melhor. É por isso que todos nós precisamos nos converter. Todos os dias.

“A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento” (Francisco,Evangelii gaudium, 1).

FONTE – Texto de Dom Fernando Arêas Rifan, Bispo da Administração Apostólica São João Maria Vianney, disponibilizado no Portal da CNBB. Acesso em 25/01/2018.

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Só para não esquecer #Liturgia

A liturgia é lugar do encontro com Aquele que vem a nós como Vida, que dá consistência de Eternidade à nossa existência,
como Novidade, que supera o tédio dos nossos dias, fazendo-nos superar uma vida na mesmice do pecado, da futilidade, a superficialidade existencial, do vazio,
como Sentido que enche de sentido a existência humana., antecipando-lhe já sua Finalidade última.

Uma liturgia que seja simplesmente expressão dos interesses, humores e ideologias de uma comunidade, não passa de uma autocelebração, que gera um curto-circuito, pois não coloca em contato com o verdadeiro Deus. É um triste terra-terra, um não sair do solo, uma pobre e mentirosa ideologia em forma de piruetas e mangangas, trejeitos e gracinhas religiosas, que somente esvaziam o Mistério e esconde o essencial da experiência cristã: Deus nos visitou, vem a nós e nos salva, nos diviniza através do Seu Filho morto e ressuscitado, na potência do Seu Santo Espírito!

Por Dom Henrique Soares da Costa, bispo de Palmares-PE.

Liturgia e Vida Cotidiana

Texto extraído da página “Vida Celebrada – Formação Litúrgico – Catequética”, da rede social Facebook em 22-01-2018.

Como que a liturgia está relacionada com a vida? Nós podemos discutir esta questão prestando atenção nos substantivos: O que é liturgia? O que é vida? Em vez disso eu gostaria de prestar atenção na conjunção: O que estamos dizendo quando falamos sobre liturgia “e” vida?

O “e” sugere que estamos falando sobre domínios distintos, atividades, ou esferas que de alguma maneira precisam ser integradas. Mas isso é verdade? Liturgia e vida são coisas distintas que precisam se unir? Estaria a vida aqui, a liturgia lá, de tal forma que devemos introduzi-las na esperança de que elas se deem bem?

Seria uma o subconjunto da outra? Devemos dizer, Tudo é vida, e a liturgia é uma das coisas que fazemos na vida. Ou devemos dizer o contrário, que tudo é liturgia, e que a vida é o que fazemos liturgicamente? Ou são duas dimensões da mesma coisa, de uma realidade?

Suspeito que o “e” nos leva para a primeira tentativa, a de tomar a liturgia e a vida como domínios distintos ou conjuntos de atividades que precisam de integração. E estou certo que muito dos nossos problemas em compreender a liturgia surgem da concepção inicial dualista da vida “e” liturgia, a noção de que a liturgia é algo separado que fazemos num dia separado, Domingo, uma ilha de atividade santificada numa triste paisagem não santificada. E a vida é o que fazemos nos dias que não são separados.

Este é o cenário pressuposto quando nos perguntamos se a liturgia tem algum valor “prático”. Perguntamos para entender como a liturgia — atividade do Domingo — se aplica à realidade distinta da vida — as atividades dos outros dias.

Diante as coisas, este é um jeito estranho de olhar para a questão. A adoração cristã é, afinal de contas, impregnada por objetos e ações que são coisas da vida exterior ao culto.

O culto é linguagem. Uma liturgia começa com invocação, inclui orações de resposta, leitura das Escrituras, ensino e pregação. Está infundido com linguagem do começo ao fim.

A linguagem litúrgica tem algumas características únicas. Algumas palavras e movimentos da frase litúrgica não são comuns fora da liturgia. Ainda assim é a mesma linguagem, e para muitos cristãos é a linguagem da vida diária. (A Missa Latina exemplifica a tendência contrária, enfatizando o “e” que separa a liturgia e a vida.)

Sobre o que falamos? Confessamos nossos pecados. No Credo, falamos sobre Deus, Jesus e história. Ouvimos sobre todo tipo de coisa na leitura e pregação das Escrituras. Oramos sobre doença e saúde, política e dificuldades econômicas, perseguição e guerra. O mundo inteiro entra na liturgia através da nossa linguagem.

A linguagem não é acidental ou descartável. Se a vida não entrasse na liturgia em nossa linguagem, não existiria liturgia, ou seria uma liturgia muito defeituosa. Se não falássemos sobre as Escrituras ou orássemos por necessidades do mundo real, não teríamos nenhum culto de verdade.

O culto inclui as artes. Nós cantamos. Frequentemente, as congregações cultuam em espaços adornados com vitrais, murais, padrões decorativos no chão e no teto. Muito da arte ocidental foi feita especialmente para a liturgia — composições para cantar, arquitetura para os espaços de culto, pinturas e esculturas para glorificar esses espaços.

Nós trazemos nosso dinheiro. Há uma linha de opiniões que veem a oferta como uma violação da santidade do culto, mas isso é um bom indicador se de fato estamos pensando sobre liturgia e vida da maneira adequada. A nossa liturgia tem espaço para ofertas monetárias ou de alguma outra coisa de valor, ou o dinheiro é visto puramente como secular, completamente fora da liturgia? Rejeitar o ofertório para proteger a santidade do culto é um outro jeito de enfatizar o “e” que mantém a vida e a liturgia seguramente separadas.

Nós comemos e bebemos. Alexander Schmemann comenta o fato de que beber e comer traz o mundo inteiro pra dentro da liturgia, uma economia inteira de produção e distribuição de grãos e uvas, a realidade da fome e do uso justo dos recursos. Há um mundo [inteiro] no pedaço de pão, e no nosso comer juntos na presença de Deus.

As liturgias bíblicas exibem essas mesmas características. O tabernáculo e o templo eram produções artísticas cheias de produções artísticas. Os israelitas traziam a produção de seus campos e seus animas para oferecerem no altar. Em vários pontos na história de Israel, o povo trazia tributos de ouro e prata para o templo. Davi organizou a produção inteira de Israel ao redor da manutenção do templo e do culto no templo (1 Crônicas 22–29).

O todo da vida humana é trazido para dentro da liturgia, em parte para afirmar a bondade de todas as coisas. Na liturgia, nós reconhecemos que todas as coisas vêm como dádivas de Deus, e através da nossa adoração toda a vida é cheia da glória de Deus e de ação de graças do povo de Deus.

A vida também entra na liturgia para ser julgada, purificada, renovada. Trazemos a linguagem para a presença de Deus para que a nossa linguagem possa ser transformada em seu uso adequado: confissão, perdão, oração, louvor e ação de graças. Falando, cantando, orando e ouvindo a palavra de Deus julga a nossa linguagem.

Clive James disse que a Bíblia é essencial para nos proteger da ideologia, do jargão, das teorias na moda. Ela atravessa nossas escuridões e distorções de linguagem e mantém nossa linguagem honesta.

A oferta litúrgica afirma que o nosso dinheiro e nossos bens são bens. São ofertas aceitáveis para Deus. Ele não despreza nossas dádivas. Mas essa afirmação tem um lado crítico também. Ao oferecer nossos bens em adoração, confessamos que não temos nada que não tenhamos recebido. Reconhecemos que o dinheiro não é Deus, mas de Deus. Enquanto reconhecemos que somos mordomos dos dons de Deus, passamos por julgamento pela nossa ganância, que é idolatria de Mamom.

O nosso comer e beber na mesa do Senhor revela o verdadeiro significado de comer e beber. A Eucaristia afirma a bondade da criação, a criação que é dada para tornar-se nós, para entrar em nós mesmos e nos oferecer como sacrifício vivo. O beber e comer é a nossa primeira experiência de graça, o dom da criação, da bondade e da alegria e do sabor do mundo que Deus fez.

O comer e beber eucarístico também traz nosso comer e beber debaixo de julgamento. Paulo disse que nós devemos discernir o corpo, reconhecer o outro, compartilhar, submeter-nos enquanto comemos; caso contrário, comemos e bebemos julgamento para nós mesmos. A Eucaristia julga nosso modo egoísta de comer e beber, nossa recusa a compartilhar o pão, nossa glutonaria que cria um deus do nosso ventre. Na Eucaristia somos incorporados em Jesus, Aquele que deu Sua vida para alimentar os outros.

A liturgia nos disciplina num descolamento desse mundo de forma adequada, um reconhecimento devido dos limites desse mundo e um distanciamento das idolatrias do mundo. E esse descolamento litúrgico do mundo é a única base para um mundanismo adequado. A vida entra na liturgia para que a vida possa se tornar litúrgica. Nós oferecemos um sacrifício de louvor para que as nossas vidas sejam permeadas com sacrifício.

Então, não “liturgia e vida.” Antes, liturgia e vida coabitando entre si, num ritmo pericorético. Portanto: “vida na liturgia” para que possamos viver a “liturgia na vida” e a “liturgia da vida.”

Autor: Peter J. Leithart
Tradução: Felipe Felix
Revisão: Daniel Vieira
Texto Original: Liturgy and Life

 

Liturgia: sinal de esperança na vida do povo

Texto extraído da página “Vida Celebrada – Formação Litúrgico – Catequética”, da rede social Facebook em 22-01-2018.

No silêncio de uma terra vermelha, 
manifesta-se o Deus de Israel – Esperança 
viva de libertação.

Alguns dias atrás pude fazer algumas experiências magníficas: dentre elas, uma na Prelazia de São Félix do Araguaia. Foram momentos surpreendentes – surpresas de Deus – que cravaram em mim uma ponta de Esperança. Esperança que vai além de uma crença emocional de possibilidades. Neste caso, uma esperança se aproxima muito da fé, é o acreditar no indizível que se faz presente no sensível, verdade divina na vida do povo. É no sabor destas vivências que gostaria de escrever sobre Liturgia.

…a liturgia possibilita viver a própria vida na Vida Divina que é atualizada em nossas celebrações[2].

A vida cristã tem como fonte a Sagrada Liturgia[1], não simplesmente como algo que sustenta a vida, mas como ápice, ou seja, cume desta vida cristã. É cume porque a existência é um caminho progressivo à plena comunhão com Deus. Por isso, a liturgia possibilita viver a própria vida na Vida Divina que é atualizada em nossas celebrações[2]. Tudo isso se dá na vida, prolongando na história o grande memorial do Senhor.

Antes de chegar à Prelazia de São Félix do Araguaia, uma pessoa me escreveu dizendo que a “Prelazia tem uma história que difere das outras Igrejas. Dizem que ela começou do avesso. Antes das igrejas, as escolas; antes dos padres, o povo, a política; antes de tudo, a vida; paralelo à fé, a luta pela terra e pela dignidade; paralelo à eucaristia, a luta pelo pão de cada dia”. Confesso, achei interessante, até considerei algo parecido como “serviço do povo” – uma liturgia.

Até então as coisas faziam muito sentido, pois era como se concretizasse uma parte da Oração do Senhor – “O Pão nosso de cada dia nos dai hoje…”. Um Pão que significa o próprio Cristo vivo no Altar, alimento espiritual e, também que significa o alimento terreno, que dá forças para o trabalho diário. Esta deve ser a compreensão de toda comunidade eclesial!

A Prelazia é marcada nacionalmente como ‘a Igreja modelo’, que tem entranhada em si o jeito de ser comunidade/Igreja. Paralelamente, lá encontrei um povo sedento de Deus, sedento de um Pastor… Liturgia também é vida em comunidade e comunidade é sinal da presença de Deus. Me perguntava: onde estava a liturgia e sua compreensão? Onde estava Deus? Onde estava a vida do povo? Era como se eu olhasse três pontos distintos.

No entanto, entre as conversas e andanças, havia algo que apresentou como elo entre toda essa realidade: a Esperança. Porém, que não anulava a realidade, mas a deixava explícita, nua e crua diante dos olhos. Então entendi que a liturgia ali acontecia enquanto esperança na vida do povo. Pois, naquela terra vermelha, Deus se manifestava e queria ser conhecido. Este é o mistério de Deus que em cada celebração se torna uma epifania divina na vida de cada cristão.

Liturgia também é esperança. Uma esperança que se faz libertação, que não tira a alegria dos olhos mesmo em meios aos sofrimentos; que não permite o verde da vida se amarelar… É força, é confiança, é fé. Mas, sem dúvida, estamos diante de uma Igreja que carece de formação. Isso nos ensina que ornamentar Igrejas, preparar leituras, ensaiar bem os cantos, entre outros, não é o principal de uma autêntica liturgia.

A liturgia não serve para encher nossos ouvidos de palavras bonitas e bem cantadas, muito menos para impregnar em nossas roupas o odor da fumaça do incenso. A liturgia serve para ser sinal latente de esperança na vida. Um sinal que impulsiona a sempre mais caminhar rumo ao Eterno, razão da nossa Esperança cristã – este é o autêntico espírito litúrgico, que manifesta com a vida o mistério divino.

Para refletir: O que é ser Igreja? A Vida está em sintonia com a Liturgia e o Ser Comunidade? Como ser sinal de esperança no mundo? Como encontrar Deus, razão de toda esperança?

Sugestão de Leitura: Gaudium et Spes – Concílio Vaticano II

Abração cheio de esperança,
Wallison Rodrigues

Fonte: site a12.com

O Ocidente: sem Cristo, na tolice e na escuridão

Texto divulgado em 19 de janeiro de 2018 por Dom Henrique Soares da Costa numa rede social.

Casualmente, vi na televisão um programa sobre a Chapada dos Viadeiros. Surpreso, fiquei sabendo de quantas pessoas vivem ali à espera de um contato com extraterrestres. Um desses devotos dos ETs vive numa verdadeira disciplina ascética, preparando-se para o encontro com os seres de outros planetas; é vegetariano, vive na pobreza e fez voto de castidade; chega mesmo a rezar para eles…

Como é louca a humanidade! Como é desorientada a nossa civilização ocidental! Primeiro, a partir do século XVIII, declaramos que o homem se tornara adulto e emancipado. Era necessário matar toda verdade religiosa e tudo quanto não coubesse na cachola miúda da razão humana. Assim, negou-se toda religião sobrenatural, toda revelação de Deus a Israel e inventou-se, no Ocidente, um deus distante, teórico, Arquiteto do Universo, distante, frio e inútil… Depois, nosso Ocidente negou Deus de vez: era preciso matar Deus – dizia-se – para que o homem vivesse de verdade. Assim, esta nossa civilização ocidental, colocou o homem no trono que pertence somente a Deus.

Esta razão endeusada e este homem no centro de tudo (na escola no ensinaram o absurdo que foi um ótimo negócio passar do teocentrismo medieval para o antropocentrismo do renascimento, como se o homem fosse Deus e Deus fosse apenas um detalhe…) levaram o Ocidente a duas guerras crudelíssimas, com mais 70 milhões de mortos… Depois das guerras (do nazismo em nome da razão, do fascismo em nome da racionalidade, do marxismo em nome da ciência e da história), veio a ressaca: não se crê mais em nada: nem no Deus revelado, nem na razão, nem nas instituições, nem nos grandes projetos…

Agora, não é mais o homem no centro; é somente o indivíduo, sozinho, fechado, egoísta, com uma ilusãozinha, uma moralzinha, um projetozinho, um deusinho segundo a sua imagem e semelhança medíocre e escrava de mil paixões…

No vazio de Deus, na negação do cristianismo, o Ocidente encontra-se perdido – alegremente perdido, bebadamente iludido e inconsciente de sua perdição! Procura-se desesperadamente encher o vazio existencial e encontrar um sentido para a vida no consumismo, no poder a qualquer custo, nas drogas, no endeusamento da natureza, no turismo desenfreado, nas seitas, na promiscuidade, na busca frenética pelo prazer e a autoafirmação… É assim: tire Deus, apague o Cristo da consciência do nosso Ocidente e fica somente o vazio, um homem infantilizado, presa das velhas práticas pré-cristãs…

Era para ser claro, palpável: sem Deus, o homem definha, o homem torna-se menos homem. Fomos, todos nós, feitos para o Infinito, para o Absolutamente Outro, o Eterno, e somente nessa abertura encontramos o Sentido, a Direção, o Eixo da nossa existência. O homem não é fruto da natureza; o homem é fruto do Autor na natureza, que nela impregna um desígnio, um sonho de amor: o homem é imagem de Deus, criado para Deus, com um coração que não se contenta com menos que Deus! Tire Deus e endeuse o que não é Deus; elimine o Deus verdadeiro e torne-se escravo de mil ídolos mentirosos!

O cristianismo, na Antiguidade, vencendo o paganismo, deu ao Ocidente a firmeza conceitual e a clareza de visão da vida e do mundo que permitiram o surgimento de uma civilização que tornou-se planetária. Esse Ocidente volta as costas para o Cristo e torna-se presa de todos os infantilismos e escravidões dos quais o cristianismo o havia libertado: desprezo pela vida humana, adoração infantilóide na natureza, falta de sentido para a existência, angústia, medo do sofrimento e da morte…

Que você, meu Amigo, tenha certeza: ainda haveremos de ver muita coisa! A tolice tem ares de sabedoria; a superstição tem pose de religião; a loucura tem fama de profunda lucidez…

Pobre homem, pobre Ocidente! Quanto precisamos de Deus; quantos temos necessidade daquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida!

Pe. Reginaldo Manzotti: “Recomeçar é preciso”

É tempo de renovar as esperanças, fazer novos planos, traçar metas em todas as áreas de nossa vida. Com certeza, Deus nos reserva muitas graças e nos quer felizes, mas pelo livre arbítrio que nos concedeu, tudo dependerá do nosso esforço pessoal e disciplina. Sempre é possível avançar mais rumo aquilo que Deus pensou para nós e Jesus veio revelar: uma vida plena e abundante.

Que tal começar pela família?

A Igreja sempre reconheceu e exaltou a importância da família para a construção de uma sociedade equilibrada, justa e fraterna. O Beato João Paulo II a descrevia como a célula mãe da sociedade e a conclamava a ser um santuário de amor, uma pequena Igreja doméstica.

Mas, atualmente, um dos grandes desafios que ronda as famílias é a influência negativa, especialmente pela mídia pejorativa que geralmente mostra situações desastrosas, conflitivas, problemáticas e praticamente não mostram as relações saudáveis que possam servir de estímulos para a construção de uma relação verdadeira. Por isso, neste artigo, abordo alguns pontos que são essenciais para uma vida em família plena em Cristo.

Começamos pelo casal, que é o alicerce da família e precisa estar unido para que a convivência da família dê certo. Por isso:

# Invistam na relação a dois – Mesmo tendo filhos, não relaxem na atenção e cuidado de um para com o outro. O que mais machuca duas pessoas envolvidas numa relação, marido e mulher, e que vai arranhando o amor, é a desconsideração. O amor se traduz em gestos concretos, por isso alimentem diariamente o amor com atenção, carinho e afeto.

# Priorizem o relacionamento – Não espere do outro as mudanças, mude você, busque o diálogo verdadeiro e não a cobrança. Não aponte os erros, os defeitos, mas valorize as qualidades. Dialogue muito. Converse sobre tudo. Não coloque pedras sobre mágoas, abra o coração ao outro e desabafe. A confiança, o respeito, a fidelidade e o diálogo sincero e transparente são essenciais ao relacionamento. Toda união bem-sucedida apresenta essas características.

# Perdoem-se sempre – O perdão é o remédio para a cura espiritual do ser humano. O perdão liberta e devolve a paz. Ao se perdoarem sobre algo que os magoou e acertarem como devem agir a partir daí, não toquem mais no assunto.

# Reservem um tempo sozinhos – Pelo menos uma vez por semana, criem o hábito de sair, ir ao cinema. A correria do dia a dia e as dificuldades financeiras podem acabar com o romance, então se arrumem um para o outro e saiam para namorar.

# Mantenham o respeito – Busquem focar a atenção naquilo que os une, nos pontos comuns. Rezem um pelo outro e busquem seguir com o olhar para o mesmo horizonte. O sucesso ou o fracasso da relação depende de quem faz parte dela, ou seja, o casal. “Não abandonem o barco antes de começarem a remar”. Não desistam na primeira dificuldade. Sejam persistentes e façam tudo o que puderem para sempre reavivar a chama do sentimento que um dia fez com que quisessem passar a vida inteira juntos.

# Maridos – “Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo (Ef 5, 25a-28)”.

# Esposas – “Vós, esposas, estai sujeitas aos vossos próprios maridos, a fim de que, se alguns não forem obedientes à palavra, sejam ganhos sem palavra, por intermédio da conduta de suas esposas, por terem sido testemunhas oculares de sua conduta casta, junto com profundo respeito (1 Pedro 3:1,2)”.

# Pais – Os filhos são um presente que Deus confia aos pais para serem amados e educados. Quem ama corrige. “Educa a criança no caminho em que deve andar e até a velhice e ela não se desviará dele (Pr 22,6)”.

# Não esqueçam que os filhos precisam de limites, de regras de comportamento. Brigas, gritos, agressões nada tem a ver com autoridade, pois ela está na serenidade, no amor, na firmeza com que aplicam a disciplina e colocam limites. Um tratamento duro e crítico quase sempre resulta em maior rebeldia.

# Dialogue sempre com seus filhos, sobretudo, especialmente o perigo das drogas, bem como namoro e gravidez. De forma sutil fique atento às amizades, aos lugares frequentados, às páginas visitadas na Internet. Procurar acompanhar os passos dos jovens, porém sem parecer um guarda-costas.

# Não economizem carinhos, abracem com frequência os filhos; digam “eu te amo”, elogiem quando merecerem. Falem do amor de Deus e da misericórdia de Jesus. Coloquem no coração dos filhos os valores do Reino de Deus. Reze sempre por eles e com eles.

# Filhos, obedecei em tudo a vossos pais, porque isto agrada ao Senhor (Cl 3, 20). Ouçam, respeitem e prestem assistência aos pais na velhice como aconselha o Livro dos Provérbios: “Dá ouvidos a teu pai, àquele que te gerou e não desprezes tua mãe quando envelhecer (Pr 23, 22)’’.

Padre Reginaldo Manzotti é fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso – Obra considerada benfeitora nacional que objetiva a evangelização pelos meios de comunicação – e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR). Apresenta diariamente programas de rádio e TV que são retransmitidos e exibidos em parceria com milhares de emissoras no país e algumas no exterior. Site: http://www.padrereginaldomanzotti.org.br. Facebook: http://www.fb.com/padrereginaldomanzotti. | Twitter: @padremanzotti | Instagram: @padremanzotti | Youtube: youtube.com/PadreReginaldo Manzotti

FONTE: <http://rbj.com.br/religiao/artigo-recomecar-e-preciso-4223.html&gt;.

Meditação para a Solene Epifania do Senhor

Escrito pelo Bispo de Palmares-PE, Dom Henrique Soares da Costa.

Este hoje é dia solene, de festa grande!
No santo tempo do Natal, a comemoração que agora celebramos somente perde em importância para aquela outra, da Natividade, no 25 de dezembro.
É que hoje, exultantes e gratos a Deus, celebramos a sagrada Epifania do Senhor! Epifania, Manifestação do Cristo Jesus! Nas palavras de Santo Agostinho:

“Este dia salienta a Sua grandeza e Sua humilhação:
Aquele que na imensidade do céu Se revelava pelo sinal de um astro
era encontrado quando O procuravam na estreiteza da gruta.
Frágil em Seus membros de criança, envolto em faixas,
é adorado pelos Magos e temido pelos maus!”

Eis: no dia do Natal, Ele atraiu a Si, pela palavra dos anjos, aqueles que estavam perto: os pastores de Belém, membros do povo judeu, já tão conhecedor dos caminhos de Deus. Mas, agora, pela luz da estrela, Ele se digna, com infinita misericórdia, a nos atrair a nós: os que não somos judeus, os gentios, que estávamos longe, entregues ao culto dos ídolos!
Pagãos nós éramos; pagão é ainda todo aquele que não conhece ou não reconhece o Cristo de Deus!
Idólatras eram nossos antepassados; idólatras continuam todos os que sem conhecerem o Deus verdadeiro, adoram falsos deuses ou divinizam, endeusam coisas limitadas e efêmeras, doando-lhes a vida, o afeto, a atenção, o melhor de si… Tornando-se deles escravos, segundo a tremenda sentença das Escrituras:

“Os ídolos deles são prata e ouro,
obra de mãos humanas:
têm boca, mas não falam;
têm olhos, mas não veem;
têm ouvidos, mas não ouvem;
têm nariz, mas não cheiram;
têm mãos, mas não tocam;
não há murmúrio em sua garganta.
Os que os fazem ficam como eles,
todos aqueles que neles confiam!” (Sl 115/113B)

Hoje, portanto, o Senhor atrai os pagãos do mundo todo à Sua salvação,
hoje realiza-se o que o nosso Deus predissera por Isaías profeta: “Fui perguntado por quem não se interessava por Mim, fui achado por quem não Me procurava. E Eu disse: ‘Eis-Me aqui, eis-Me aqui’ a pessoas que não invocavam o Meu Nome” (Is 65,1). O Senhor, cuja luz brilhou para todos os povos, continua e continuará sempre a iluminar, a atrair, a fazer brilhar de mil modos a Sua luz bendita no coração de todos filhos de Adão e filhas de Eva que vêm a este mundo, pois a todos o Santo criou à Sua imagem e semelhança e “quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,4).
– Obrigado, Senhor Jesus, porque vieste também para nós!
Obrigado porque nos arrancaste do poder das trevas,
porque nos fizeste passar dos falsos deuses, dos ídolos falsos e mortos ao Deus vivo e verdadeiro!

Hoje, portanto, meus caros em Cristo, a festa é nossa!
Somos nós que vemos a Luz,
somos nós, convidados a seguir a estrela do Menino;
nós, convidados a adorá-Lo, presenteando-O com nossos melhores dons:
o ouro das nossas boas obras,
a mirra do nosso coração,
o incenso do nosso amor!

Somos hoje convidados a admirar o exemplo desses sábios do Oriente, que vendo no céu o sinal do Rei nascido, não temeram deixar tudo e, humildemente, seguir a luz! Como foram sábios verdadeiramente, esses que, humildes, não hesitaram em se deixar guiar pela luz de Deus! Como Abraão, o pai de todos os judeus, deixara sua terra e partira à ordem de Deus, sem saber aonde ia, assim também, esses que hoje são as nossas primícias para Cristo, partem, obedecendo ao apelo do Senhor, sem saber para onde vão!
Caríssimos, partamos também nós!
Partamos de nossa vida cômoda,
partamos de nossa fé tíbia,
partamos de nosso cristianismo burguês, que deseja ser compreendido, aceito, e aplaudido pelo mundo!
Partamos, ou não veremos a luz do Menino! “Deus é luz e Nele não há trevas. Se andarmos na luz, como Ele está na luz, então estamos em comunhão uns com os outros e o sangue de Seu Filho Jesus nos purifica de todo o pecado” (1Jo 1,5b-7).
Partamos, pois, caríssimos, e encontraremos aquele que é a Luz dos povos, a Luz do mundo!

Porque os Magos tiveram a coragem de partir, conseguiram atingir o Deus inatingível e o adoraram! Diz o Evangelho que eles, “ao verem de novo a estrela, sentiram uma alegria muito grande!” Nós também, se encontrarmos de verdade o Senhor!
Mas, atentos! O que eles encontram? Pasmem! Encontram um menininho pobre, com uma pobre jovem do povo, Maria, Sua Mãe… Não O encontram num palácio, não O encontram numa corte! E, no entanto, com os olhos da fé, reconheceram o Rei verdadeiro, prostraram-se e O adoraram!

Vede, caríssimos meus, somente quando nos deixamos guiar, podemos encontrar o Senhor; somente quando saímos dos nossos esquemas, dos nossos modos de pensar, de achar e de sentir, podemos de verdade ver naquilo que é pobre e pequeno, ver naquilo que não estava nos nossos planos e expectativas, a presença de Deus.
Depois, diz o Evangelho que eles voltaram por outro caminho… Sim, porque quem encontrou esse Menino, quem se alegrou com Ele, quem viu a Sua luz, muda de caminho, caminha na Vida!

Mas, nesta festa de tanta alegria, doçura e luz, há uma nota de treva: “Ao saber disso, o rei Herodes ficou perturbado e, com ele, toda Jerusalém…” Jerusalém, que representa o povo judeu… Jerusalém, que deveria alegrar-se, perturba-se, hesita, não é capaz de reconhecer o tempo da visita de Deus!
E nós, caríssimos?
Nós, membros do Povo de Deus, não corremos o risco de nos acostumar de tal modo com o Senhor, a ponto de não mais reconhecer Suas visitas, Sua presença luminosa e humilde, Sua graça em nossa vida?
Não corremos o risco gravíssimo de não mais nos deixarmos interpelar pela Sua Palavra?
Ah, que perigo que as mil palavras, as mil modas, as mil ideologias do mundo atual sufoquem a Palavra, na sua clareza, no seu frescor, na sua simplicidade, na sua radicalidade, na sua luz…
A festa de hoje, certamente mostra-nos a benignidade de Deus que a todos quer iluminar e salvar, mas também revela a concreta e tremenda possibilidade do homem: ser generoso e responder “sim” ou ser fechado e responder “não”!
Os judeus, o povo amado, começa a se fechar para o seu Senhor. É o início de um drama que culminará na Cruz… De modo grave, Santo Agostinho afirma:
“Ao nascer fez aparecer uma nova estrela, Aquele mesmo que, ao morrer, obscureceu o sol antigo! A luz da estrela começou a fé dos pagãos; pelas trevas da Cruz foi acusada a perfídia dos judeus!”

E olhemos bem, que não somos melhores que o Povo da Antiga Aliança! Podemos recusar a Luz, podemos querer ofuscar a Luz com nossas ilusórias tochas ideológicas, podemos sufocar a Palavra com nossas vãs palavras travestidas de mentirosa sapiência, oca e mundana!
Uma coisa é certa: é impossível, meus caros, ficar indiferente ante este Menino, este pequeno Rei: ou nos abrimos para Ele e Nele encontramos a Luz e a Vida, ou para Ele nos fechamos e não veremos a Luz!
Acorda, cristão!
Sai do marasmo,
sai da tibieza,
sai da preguiça,
sai do pensamento vão,
sai do vício,
sai dos acordos mornos com o mundo!
Acorda!
Sai de ti e deixa-te iluminar pelo Salvador por ti nascido!

Finalmente, um último mistério. Se Jerusalém fechou-se para o Rei nascido, como pôde o profeta cantar a luz da Cidade santa na primeira leitura desta Missa?
“Levanta-te, acende as luzes, Jerusalém, porque chegou a tua Luz, apareceu sobre ti a Glória do Senhor! Eis que está a terra envolvida em trevas, mas sobre ti apareceu o Senhor!”
Esta Jerusalém santa, envolvida pela Glória do Senhor, esta Cidade fiel à qual se dirigem os povos, é a Igreja, o Novo Israel, a Esposa de Cristo. É ela a Casa na qual, segundo o Evangelho de hoje, os Magos entraram e encontraram o Menino com Sua Mãe.
É na Igreja, na Mãe católica, una, única e santa, que os homens de todos os povos e de todas as raças podem encontrar o Salvador, tornado sempre presente no anúncio da Palavra segundo a perene Tradição apostólica, nos sacramentos celebrados continuamente no Espírito do Senhor, na vida de comunhão fraterna dos discípulos do Deus nascido da Toda Santa! Esta é e será sempre a grande missão da Igreja: dar Jesus ao mundo, iluminar o mundo com a Luz do Senhor, ser casa espaçosa e aconchegante na qual toda a humanidade possa ver a salvação do nosso Deus!

Caríssimos, alegremo-nos! Daqui a pouco, o Menino por nós nascido, por nós oferecido na Cruz em sacrifício e, em nosso favor, ressuscitado dos mortos, mais uma vez nos será oferecido como hóstia ao Pai dado em comunhão a nós.
Como os Magos, nos levantaremos,
como os Magos, acorreremos a Ele,
como os Magos, reverentes adorá-Lo-emos!
Que também, como os Magos, voltemos para nossas casas alegres de grande alegria, tomando outro caminho na vida!
Que no-lo conceda o Deus nascido da Virgem que hoje Se manifestou ao mundo. Amém.