O Messias, Acaz e eu

Texto de Dom Henrique Soares da Costa, bispo de Palmares-PE.

Neste dia 20, na primeira leitura do missa, o sinal do Emanuel…
Texto conhecido, messiânico, cheio de esperança…

Mas, na realidade, desafiador.
O que você faria? O que eu faria? – pergunto-me sempre preocupado, com medo de brincar de crer, ao invés de crer de verdade.
Sim, sim, porque crer não é compreender tudo;
crer é entregar-se,
é abandonar-se,
é verdadeiramente levar a sério que Deus existe e age no mundo e na minha vida!
Não é fácil, às vezes…

Era pelo ano 734 antes de Cristo. Acaz, rei de Judá, descendente de Davi, estava iniciando o seu reinado e já enfrenta um gravíssimo perigo: os reis de Aram e o rei de Israel (o Reino do Norte) preparam-se para invadir Jerusalém e depô-lo do trono, colocando um outro rei, não descendente de Davi, no seu lugar. Judá é fraco; Acaz é um homem frio de coração em relação a Deus: é um judeu infiel ao Senhor.

Diante do perigo dos dois exércitos inimigos, Acaz pensa em pedir ajuda à poderosa Assíria, com seu exército. Certamente, os reis hostis ficariam quietos; pensariam duas vezes antes de atacar Judá, se este fosse aliado dos assírios. O raciocínio de Acaz era lógico, de boa política, de tino estratégico, condizente com alguém que tem a responsabilidade de salvar o seu reino e o seu trono.

E aí, lá vem o profeta Isaías ao encontro do rei na estrada do Campo do Pisoeiro…
Ah! Os profetas! Esses exóticos, com mensagens do Céu! Que trabalho, que dão! Era melhor que não falassem…
Isaías traz um recado do Deus Santo de Israel: Acaz tome as suas providências, mas não procure ajuda na Assíria! Não tenha medo, pois o Senhor garante que os reis de Israel e de Aram não conseguirão invadir Judá nem destroná-lo!

Com base em que esse profeta maluco diz isto? Vai o rei tomar uma decisão tão importante confiando em crenças proféticas?
– Vou eu decidir minha vida, regular minhas decisões crendo em mandamentos de Deus?
Eu não deveria ser realista, não deveria ver as coisas com minha razão e deixar pra lá essas histórias, fruto de sonhos religiosos?

Está aí:
de um lado, a aparente realidade que nossa razão e nosso entendimento alcançam;
de outro, a Palavra de Deus, a promessa de Deus, o sonho de Deus… 
Crer em Deus exige que eu saia de mim, que eu me abandone, que eu dê um salto no escuro (no escuro não; nos braços Dele).
E agora, o que Acaz fez?
O que eu faria?
O que eu faço?

O Profeta chato insiste: “Pede um sinal, rei Acaz, no alto do céu ou embaixo na terra: o Senhor dar-te-á um sinal!”

Mas, diga-me, caro e paciente Amigo meu, que gasta tempo visitando estes escritos:
Para quem não crê, algum sinal resolve?
Para quem não deseja crer, não está disposto a sair de si e apostar nesse Outro, nesse Deus tão soberano, tão livre, tão exigente, algum sinal adianta alguma coisa?

Cinicamente, Acaz finge piedade: “Não! Não pedirei sinal algum! Não vou colocar o Senhor à prova!”
Cínico! Não crê e não está disposto a continuar a conversa: não pedirá sinal, não escutará o profeta; fará como estava planejando, afinal é ele o responsável pelo trono e pelo reino e tem que ser sério, racional, responsável, lógico…
Ah, Acaz! Ah, eu mesmo!

E o profeta, indignado, repreende a fria e cínica incredulidade do rei:
“O Senhor te dará um sinal: tu não sabes ainda, mas a tua jovem esposa concebeu, está esperando um filho teu, um herdeiro para o teu trono! Apesar de não creres, de seres ingrato com o Senhor, Ele olha para a Casa de Davi. Tua descendência continuará! O menino (Ezequias) será a prova de que Deus está conosco e não deixará que Judá sucumba. Ele pode ser apelidado de Emanuel!”

E assim foi, conforme o sinal do Senhor: a jovem havia realmente concebido e deu à luz o Emanuel, o rei Ezequias…
Deus que promete, Deus que cumpre… Deus fiel!

Mas, a história desta profecia não tinha terminado ainda!

Ezequias nasceu, reinou, morreu. Assim os seus descendentes… O tempo foi passando e cada vez que os judeus colocavam os olhos nesta profecia, geração após geração, o Espírito de Deus fazia-os compreender que a promessa ainda tinha um significado mais profundo! Deus enviaria ainda um definitivo Descendente de Davi, um Emanuel insuperável, eterno, santo e justo, que selaria para sempre a promessa: Deus estaria eternamente conosco…

Pelo século II antes de Cristo, os judeus traduziram as Escrituras para o grego.
E aí, na tradução, a esperança de Israel aflorou claramente. Em vez de “a jovem”, escreveu-se “a virgem”; ao invés de “concebeu”, escreveu-se “conceberá”: Eis o sinal que Deus continuava dando ao povo de Israel, sinal de esperança, sonho de salvação:
um dia viria o Messias: uma virgem conceberia e daria à luz o verdadeiro Emanuel!

Eis o modo surpreendente de Deus! O Emanuel seria realmente Deus-conosco, conosco pessoalmente, Deus na nossa humana natureza, eterno entrado no tempo, glorioso feito humilde, sábio feito criança!
Nem Isaías suspeitava o sentido profundo que Deus tinha em mente e no coração quando lhe inspirou aquela profecia!

E eu, às vezes como Acaz, medroso e cheio de dúvidas, contemplo, admiro-me, ajoelho-me, adoro!
– Senhor, pelas preces da Toda Santa Virgem Maria,
Virgem que acreditou,
perdoa-me os momentos de Acaz!
Sustenta minha fé para que eu possa acolher o Teu santo Messias, o Emanuel que nos enviaste há dois mil anos,
que envias a cada dia na Liturgia e na vida
e que enviarás um Dia, para julgar o mundo e a mim!
Pela graça do Teu Deus-conosco,
faze de mim eu-contigo! Amém.

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