Liturgia e projeto divino

O Reino de Deus, que tanto ouvimos falar no Evangelho, é o projeto divino para a terra e para toda humanidade. Na expressão “Reino de Deus” encontra-se a realização do Mistério Pascal de Jesus Cristo, é lógico, mas algumas particularidades que se fazem presentes nas celebrações do mês de setembro de 2017, do 22º Domingo do Tempo Comum – A ao 25º Domingo do Tempo Comum – A. Quatro celebrações com quatro elementos importantes interagentes, para que o Reino de Deus, para que o projeto divino seja cultivado na terra.

Discípulos para realizar o projeto divino

Inicialmente, não se pode esquecer que o projeto é divino, é de Deus, mas acontece na terra. E, pelo fato de acontecer na terra, de acontecer no meio do mundo, este conta com a nossa colaboração. Para que esta colaboração seja eficaz e promotora de resultados, a primeira coisa a se considerar é a qualidade de quem atua neste projeto. Tal qualidade é formatada no caminho do discipulado, proposto no 22DTC-A.

A Liturgia tem uma função importantíssima: todos os Domingos, cada celebração propõe o caminho do discipulado e indica como cultivar o projeto do Reino de Deus. Nossa ajuda, nossa colaboração no cultivo do Reino depende da condição de ser discípulos e discípulas do Evangelho. É por meio do discipulado do Evangelho que, a exemplo de Jesus, fazemos a vontade do Pai em tudo e, assim, o projeto divino cresce entre nós.

A primazia e a prioridade do projeto divino para a terra e, especialmente, para a humanidade tem seu enfoque central na Liturgia do 22DTC-A. Nada está acima do projeto divino e tudo que realizamos como discípulos e discípulas tem em vista o crescimento do Reino de Deus, realizando a vontade de Deus. O seguimento de Jesus comporta também a aceitação da vontade divina, mesmo que esta apresente dificuldade de compreender o sucesso existencial. Quem se coloca contra o projeto divino é considerado Satanás, diz Jesus. Satanás é quem faz oposição ao projeto divino. Disto, a necessidade de ser tão somente discípulo e discípula, seguidores de Jesus, realizadores do projeto de Deus onde se vive.

Não dever nada a ninguém, a não ser o amor fraterno!

O discipulado promove uma atitude fundamental no cultivo e na construção do projeto divino do Reino de Deus: a fraternidade. O 23DTC-A trata a fraternidade pelo viés da “correção fraterna”.

À primeira vista, a correção fraterna é um tema difícil, mas compreensível se iluminado pela luz da fraternidade evangélica, considerando que o pecado destrói a vida de quem o pratica. A destruição de uma vida, no contexto do projeto divino, pode ser avaliada como uma falência do próprio projeto, uma vez que o Reino de Deus tem em vista a vida plena a ser vivida em cada homem e mulher. Por isso, se alguém se desvia do caminho que conduz ao discipulado e toma o caminho do pecado, este precisa ser reconduzido ao caminho do Evangelho para que o projeto divino não conheça uma falência. Eis o motivo da correção fraterna.

Entende-se que Jesus não pede que sejamos juízes de nossos irmãos e irmãs, acusadores de seus pecados e erros. Pede que sejamos fraternos. A correção fraterna, proposta no 23DTC-A, não tem a finalidade de punir, mas de reconciliar quem pecou para que volte à comunidade para poder atuar na construção do Reino de Deus vivendo a vida de modo pleno, no caminho da graça.

Junto a este tema da “correctio fraterna”, de modo íntimo e profundo, encontra-se o tema do perdão, celebrado na Palavra do 24DTC-A. “Quantas vezes perdoar quem nos ofendeu?”, interroga Pedro. Sem o perdão não existe correção fraterna, sem o perdão não existe fraternidade e sem fraternidade, o projeto divino não tem resultado e nem incidência na vida pessoal e social. À pergunta quantificada feita por Pedro, colocando o perdão numa escala de zero a sete, a resposta de Jesus é dada de modo qualificado a partir da bondade e do amor divinos. Jesus ensina que o modo de tratar quem nos ofendeu não se encontra no tamanho da ofensa, mas no tamanho da misericórdia divina. E, em se tratando de misericórdia divina, sabemos que esta é ilimitada. Assim deve ser o procedimento com quem nos ofendeu: oferecendo o perdão sem limites. Assim procede o discípulo e discípula do Evangelho.

O Reino de Deus e a vinha do mundo

Se a condição para trabalhar de modo profícuo e qualificado no projeto divino encontra-se no discipulado, a gratuidade é o coração (e está no coração) de quem se disponibiliza a contribuir com o crescimento do projeto divino.

Quando se trabalha de modo gratuito e sem esperar algum tipo de recompensa financeira, por exemplo, ou algum tipo de reconhecimento elogioso, então pouco importa se somos da primeira hora, enfrentando todo o calor do dia, ou se alguém da última hora recebe o mesmo salário que recebemos (25DTC-A). A Liturgia do 25DTC-A ensina aos celebrantes — tratados neste Domingo como trabalhadores da vinha — que o mal-estar causado pelos trabalhadores da primeira hora, dos primeiros momentos da formação da comunidade, não tem sentido diante dos critérios divinos. O convite para se trabalhar na vinha do Senhor não se pauta na meritocracia, mas na disponibilidade gratuita de quem se dispõe trabalhar para cultivar o Reino de Deus.

Serginho Valle

FONTE: SAL – Serviço de Animação Litúrgica <http://liturgiasal.blogspot.com.br/2017/08/liturgia-e-projeto-divino.html> 

Agosto de 2017

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“Altíssimo é o Senhor, mas olha os pobres” (Sl 137,6) por Irmã Aíla, NJ

O texto é um roteiro homilético para o 21º Domingo do Tempo Comum (27/08) elaborado pela Irmã Aíla, NJ*.

 

I. Introdução geral
Nas leituras de hoje está em foco a identidade de Jesus e de seu Pai. Como nos relacionamos com Deus? O que sabemos sobre ele? É um Deus castigador, preocupado em favorecer alguns em prejuízo de outros? Quem é Jesus? É alguém que barganha comigo, que quer o meu dinheiro em troca de milagres? É alguém que atende aos meus pedidos porque estou engajado na Igreja e que deixa pessoas de outras religiões morrerem por causa da fome, da guerra e da violência?

Hoje, mais do que antes, devemos fazer perguntar quem é Jesus. E a resposta a essa pergunta não pode ser dada a partir de fórmulas decoradas. A resposta sobre a identidade de Jesus, e do Deus Uno e Trino, tem de ser uma resposta prática, não teórica. A minha vida deve dizer quem é Cristo para mim. Somente a vivência da fé, desde o mais íntimo do coração, até se traduzir em doação e serviço ao próximo, pode mostrar o que significa, para mim, Jesus como manifestação de Deus. Somente quando nos identificarmos com Jesus, termos para com o Pai a mesma atitude que ele teve e nos deixarmos conduzir pelo Espírito Santo é que poderemos compreender quem é Jesus.

II. Comentário dos textos bíblicos
1. Evangelho (Mt 16,13-20): eu te darei as chaves do Reino
O trecho do evangelho nos diz que Jesus se retirou com os discípulos para um território pagão. Com essa atitude, ele quer demonstrar a missão de Jesus estendida a todos os povos. É necessário que os discípulos saibam com clareza quem é Jesus e qual missão ele veio realizar, porque os discípulos serão os continuadores de Jesus.

A pergunta “quem dizem que eu sou?” trouxe uma diversidade de respostas da opinião popular que foram ouvidas pelos discípulos ao longo do ministério público de Jesus. As pessoas demonstram respeito e gratidão para com a pessoa de Jesus, mas compreendem a identidade dele a partir do Antigo Testamento, como um grande profeta, e não se dão conta da novidade que ele veio trazer.

Os discípulos, representados por Pedro, dão um passo além na interpretação da vida de Jesus. Ele é o Messias ou o Cristo, mas os discípulos têm ainda uma concepção nacionalista e triunfante sobre o Messias. À primeira vista, Pedro respondeu de maneira acertada à pergunta de Jesus, mas, assim como o povo, não percebe nenhuma novidade a respeito da forma como Jesus vive a messianidade. A resposta que Pedro deu é a resposta dos discípulos, que disseram o mesmo ao ver Jesus andar sobre as águas (Mt 14,33).

Aqui encontramos pela primeira vez nos evangelhos o termo “Igreja” para designar a comunidade cristã, porque a Igreja é alicerçada na pedra que é a confissão de fé feita por Pedro e pelos discípulos. Aqui surge a Igreja como comunidade que professa a fé em Jesus, o Cristo, o Filho de Deus.

Por isso Pedro recebe as chaves, quer dizer, recebe o serviço de agir como um pai que em tudo procura o bem dos filhos, um pai que age à maneira do Pai de Jesus. Dessa forma, sobre a base firme e irremovível da confissão de fé, sobre a qual se edifica a Igreja, Pedro recebe o encargo de cuidar da casa e fazer com que todos os povos sejam acolhidos nessa família espiritual de Jesus.

2. I leitura (Is 22,19-23): a chave da casa de Davi
A primeira leitura refere-se a um episódio da vida do palácio real no Reino de Judá. Um alto funcionário detentor “das chaves do palácio”, quer dizer, que tem encargo de administração, é substituído nas suas funções. Esse episódio mostra a função do mordomo do palácio: em seu poder estão as chaves do palácio real; ele decide a quem ajudar com os bens do soberano e define quem é atendido em audiência pelo rei. Mas aquele que possui “as chaves” do palácio foi demitido de suas funções, despojado das insígnias de sua autoridade (a túnica e a chave do palácio). Foi destituído de suas funções porque esqueceu que autoridade é serviço, que estava nessa função para que todos pudessem ficar bem, ter a partilha, os bens que supririam necessidades básicas e o acesso à justiça.

Essa leitura nos ajuda a entender a passagem do evangelho na qual Jesus dá a Pedro as chaves do reino de Deus.

3. II leitura (Rm 11,33-36): “Tudo é dele, por ele e para ele” (Rm 11,36)
Na segunda leitura, Paulo nos encanta com um belo hino de louvor, no qual o Apóstolo adora a Deus, reconhecendo quão misterioso é o projeto divino da salvação. Após refletir sobre o projeto salvífico, Paulo chega à conclusão de que os desígnios misteriosos de Deus ultrapassam a capacidade humana de compreensão. Deus é desconcertante, a lógica divina é completamente diferente da lógica humana. Nesse sentido é que o verdadeiro cristão é aquele que, mesmo sem entender o alcance do projeto de Deus, se abandona confiantemente em suas mãos.

Mas esse abandono confiante somente é possível quando conhecemos, por experiência de vida, que Deus é um Pai amoroso, quando não nos fechamos no orgulho e na autossuficiência e acolhemos, com gratidão, os seus dons. Sem termos experimentado um pouco que seja da identidade de Deus, não teremos coragem de nos abandonarmos em suas mãos para ter a vida e a morte que ele quiser para nós.

III. Pistas para reflexão
Ser cristão significa responder à pergunta de Jesus quanto à identidade dele. Uma resposta que não seja dada de maneira teórica, pois é insuficiente, mas uma resposta com atitudes de vida que ele exige de mim hoje.

A resposta correta acerca de “quem é Jesus” somente será possível quando eu descobrir em Jesus a presença de um Deus misericordioso e quando eu fizer com que as demais pessoas descubram, em meu modo de viver o cristianismo, a identidade de Jesus. Essa é a tarefa primordial do cristão.

A comunidade celebrante deve ser exortada a tomar cuidado com as noções de Deus que são apresentadas às pessoas – isso pode afastá-las mais que aproximá-las de Deus. Nossa grande tentação é fazer Deus parecido conosco, ranzinza como nós somos, justiceiro e vingativo como gostamos de ser. Deus não se encaixa em teorias ou padrões humanos, não age conforme nossa lógica. Ele é o Altíssimo que se abaixa até o pobre e o tira do monturo (Sl 113,7).

O cristão não é aquele que “sabe” tudo sobre Deus, mas aquele que sabe que jamais será desamparado por Deus e se entrega confiantemente nas mãos dele.

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Publicado originalmente em: Revista Vida Pastoral
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DETALHE: Irmã L. Pinheiro de Andrade, participante do ramo feminino do Instituto Religioso Nova Jerusalém, é graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje – BH), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica e lecionou por alguns anos. Atualmente, leciona na Faculdade Católica de Fortaleza. É autora do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas).

 

FONTE: Blog do Ramo Feminino do Instituto Religioso Nova Jerusalém.

Meditação para a Festa da Transfiguração – Ano A

Na liturgia católica, 6 de agosto é Festa da Transfiguração do Senhor. Por cair num domingo, neste ano, a Festa transforma-se em Solenidade, pois é uma das festas do Senhor.

Eis-nos, portanto, caríssimos, com Pedro, Tiago e João, ante o Senhor nosso Jesus Cristo, envolvido pela Nuvem luminosa, que O envolve (cf. Lc 9,31) e cobre os discípulos com sua sombra, como cobriu a Virgem Maria na Anunciação; eis o Senhor Jesus totalmente transfigurado, com vestes brilhantes e alvas “como nenhuma lavadeira sobre a terra poderia alvejar”; eis Jesus ladeado por Moisés e Elias… Que significa, caríssimos, este belíssimo Mistério?

 

Como o Deus Santo de Israel, sobre o Monte Sinai, que revelou Sua Glória a Moisés e depois a Elias, assim também hoje, no Monte Tabor, Jesus revela a Sua Glória, a Glória de Filho de Deus, a Glória divina que é Sua, mas que se escondia na Sua pobre condição humana de Servo, por Ele assumida para nos salvar: “O Verbo Se fez carne e habitou entre nós e nós vimos a Sua Glória, Glória que Ele tem junto ao Pai com Filho único, cheio de graça e de verdade” (Jo 1,14).

Hoje, caríssimos, o Pai, envolvendo o Filho Amado com a Nuvem, símbolo do Santo Espírito, nos revela antecipadamente a Glória que Jesus, na Sua natureza humana igual à nossa, teria depois da Ressurreição: “Efetivamente, Ele recebeu honra e glória da parte de Deus Pai, quando do seio da esplêndida Glória se fez ouvir aquela voz que dizia: ‘Este é o Meu Filho bem-amado, no qual ponho o Meu bem-querer’”.

Olhemos para Jesus: Ele é divino, Ele é o Filho amado, igual ao Pai em glória; Ele é o nosso Deus Salvador! Se Moisés e Elias sobre o Monte não puderam ver o Rosto de Deus, agora, no Tabor, eles contemplam, com o rosto descoberto, a Glória fulgurante de Deus que se manifesta na Face de Cristo! Eis, meus caros irmãos: em Cristo, Deus Se revelou a nós, em Cristo, Deus veio ao nosso encontro. Ele Se fez um de nós, assumiu nossa pobreza humana para nos enriquecer com a glória da Sua divindade. E essa Glória, Ele no-la mostra hoje sobre o Tabor; essa Glória é o nosso destino, é a nossa herança! Na Ceia derradeira, pensando no Espírito de Glória que derramaria sobre Seus discípulos de todos os tempos nos sacramentos da Igreja, o Senhor nosso diria: “Eu lhes dei a Glória que Tu me deste” (Jo,17,21).

 

Mas, atenção! Nos três evangelhos que narram a Transfiguração, está dito que esta manifestação gloriosa do Senhor aconteceu pouco depois do primeiro anúncio da Sua Paixão. O que isso quer dizer? Duas coisas importantíssimas:

Primeiro, que a Paixão não é um fim, a Paixão não é derrota, mas o modo que Deus tem de vencer; a Paixão é caminho para a Glória.

E aqui, precisamente, a segunda lição: não se pode entrar na Glória de Cristo sem passar pela Cruz do Senhor; como dizia São João da Cruz: “Quem não ama a Cruz de Cristo, não verá a Glória de Cristo!” Glória de Cristo sem cruz, sem conversão, sem combate, sem sair de nós e de nossas medidas, simplesmente não é possível! Não é por acaso que Jesus proíbe os discípulos de contar o que eles viram sobre o Monte “até que o Filho do Homem tivesse ressuscitado dos mortos”. É que jamais se poderá compreender a Glória de Cristo sem antes se ter participado do mistério de Sua Cruz.

Uma glória sem a experiência da cruz seria triunfalista, anti-evangélica, idolátrica, mundana. Somente a Glória que brota do amor da Cruz é divina, verdadeira, libertadora, humanizadora, reveladora do Coração do Pai! Do mesmo modo, não é por acaso que Pedro, Tiago e João, que estiveram com Jesus no Tabor, deveriam também estar com Ele no Monte dasOliverias, convidados a fazer-Lhe companhia no momento em que Ele “começou a apavorar-Se e a angustiar-Se” (Mc 14,33). Infelizmente, aqueles lá – como nós tantas vezes -, no Tabor queriam armar tendas e ficar ali; nas Oliveiras, dormiram e deixaram Jesus sozinho…

 

Eis, caríssimos, o sentido do Mistério de hoje! Cristo feito homem é Deus verdadeiro, vivo e perfeito, é o Deus de Israel com rosto e coração humanos. Cristo, como aparece hoje no Tabor, já nos mostra a Glória que o transfiguraria para sempre. Cristo, envolvendo Moisés e Elias com a Sua Glória, revela que é Nele que a Lei e os profetas encontram a luz e chegam à plenitude. Cristo, inundando de luz a Seus discípulos, envolve-os na Sua Glória, revelando qual o nosso destino: participar da luz da Sua Glória por toda a eternidade! Mas, tudo isso, passando pelo mistério da cruz!

 

Hoje, estamos nós aqui, celebrando a Santa Eucaristia, sacrifício do Cordeiro morto e glorificado… Hoje, o Tabor é aqui; hoje, é aqui, nos sinais eucarísticos, que se manifesta a Glória do Senhor Jesus porque nos é dado o Espírito do Senhor, que eucaristiza, que transfigura, que transubstancia o pão e o vinho, elementos deste mundo, como a natureza humana de Jesus, em Corpo e Sangue do Cristo Senhor imolado e ressuscitado, pleno de Espírito de Glória! Comungando no Seu Corpo e no Seu Sangue é Sua Glória que nos inunda, é Sua graça que nos fortalece, é Sua Vida eterna e divina que nos revigora.

Mas, nunca esqueçamos: como o Cristo do Tabor era Aquele que haveria de morrer e ressuscitar, o Cristo da Eucaristia é o Cordeiro vivo mas quebrado, partido em Eucaristia, a nós dado na Sua amorosa imolação! É este mistério, irmãos amados, que devemos viver na nossa vida: trazer em nós continuamente a participação na paixão e morte do Senhor para que a Sua Glória e a Sua Vida vão nos inundando, vão transfigurando a nossa existência, as nossas experiências, até o Dia eterno, no Tabor eterno da Glória sem fim! Este é o caminho de Cristo, o único que é segundo o Evangelho! Por isso mesmo, o Pai nos adverte: “Este é o Meu Filho amado. Escutai o que Ele diz!” Diz com a palavra, diz com os gestos, diz com a vida, diz com Sua Morte e Ressurreição. Então, escutar Jesus é se predispor a participar do Seu caminho, do Seu destino de cruz e de glória, de morte e ressurreição. Não sejamos amigos do Tabor e inimigos do Horto das Oliveiras! Não seríamos discípulos, não seríamos cristãos! Sustentemos os combates da vida com os olhos fixos em Cristo e, nas escuridões desta nossa humana peregrinação, tenhamos diante dos olhos a esperança da Glória de Cristo, “como lâmpada que brilha em lugar escuro, até clarear o Dia e levantar-se a Estrela da manhã”. Mas, que Estrela é essa, de que fala a segunda leitura. O Apocalipse responde, com as palavras do próprio Cristo glorioso: “Eu Sou o Rebento da estirpe de Davi, a brilhante Estrela da manhã” (Ap 22,16). Eis, portanto: os tempos são maus, a confusão é grande, os inimigos da fé de dentro, solapando a verdade do Evangelho! Suportemos, unidos a Cristo, o combate, sabendo que “quando Cristo nossa Vida aparecer, seremos semelhantes a Ele, pois o veremos como Ele é” (1Jo 3,2). A Ele a glória, pelos séculos dos séculos. Amém.

Por Dom Henrique Soares, bispo de Palmares.

A Palavra de Deus: o Livro da Sabedoria…

Por Dom Henrique Soares, bispo de Palmares/PE.

“A Sabedoria é um Espírito amigo dos homens,
não deixa impune o blasfemo por seus propósitos;
porque Deus é a testemunha dos seus rins,
perscruta seu coração segundo a verdade
e ouve o que diz a sua língua” (Sb 1,6).

Na Escritura Sagrada, no Livro da Sabedoria, aparecem a Sabedoria e o Espírito. Os cristãos, relendo esta Palavra de Deus à luz do Cristo Jesus, discernem na Sabedoria
ora o Verbo eterno que Se fez carne,
ora o Espírito Criador, que o Cristo derramou sobre nós.

Neste versículo 6, poder-se-ia compreender a Sabedoria como sendo
o Espírito Santo de Deus
ou como o Verbo, cheio do Espírito, doador do Espírito,
que Dele procede vindo do Pai como Sua fonte última.

Em todo caso, é da ação do Espírito que o versículo fala: Ele é Amigo dos Homens! Título belíssimo: Filantropo!
Nossos Irmãos do Oriente muitas vezes referem-se assim ao Cristo: Amigo dos Homens!

Deus ama a humanidade, Deus criou o homem à Sua imagem, criou-o para a comunhão com Ele, criou-o para que ele traga em si a bendita imagem do Cristo morto e ressuscitado, o Homem perfeito, o modelo, critério e medida de cada homem! (cf. Ef 4,13-15)
Para nós, cristãos, que é o homem?
O ser criado através de Cristo e para Cristo,
o ser que somente será ele mesmo à medida que traz em si a imagem bendita do Cristo Jesus!
Para nós, cristãos, qual o critério, a medida do homem? Quem diz o que é verdadeiramente humano ou não, o que é normal ou não, o que é correto ou não, o que é lícito ou não, o que é ético e moral ou não, o que é bem ou mal?
Eis a resposta: o Cristo Jesus!
Ele é a Medida, o Critério, o Sentido:
“Até que alcancemos todos nós a unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, o estado de Homem Perfeito, a medida da estatura da plenitude de Cristo.
Assim, não seremos mais crianças, joguetes das ondas, agitados por todo vento de doutrina, presos pela artimanha dos homens e da sua astúcia que nos induz ao erro. Mas, segundo a verdade em amor, cresceremos em tudo em direção Àquele que é a Cabeça, Cristo!” (Ef 4,13-15).

Certamente, a humanidade como se encontra agora – eu, você, todo ser humano – é uma humanidade ferida, cheia de cacoetes, manifestações tortas, patológicas, conflituosas…
O homem e os critérios dos homens, mesmo que “doutos”, nunca podem ser o critério último do ser e do agir humano: só Cristo, o Homem Perfeito, é a medida do homem, como reconhecia a Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II: O mistério do homem somente se ilumina à luz do mistério do Verbo Encarnado! Somente Cristo revela de modo pleno o homem ao próprio homem! (cf. GS 22).

Menos que Cristo não realiza o homem, não o humaniza verdadeiramente! Qualquer proposta de humanização que seja fora de Cristo ou contra Cristo é desumanizante!

Por isso, o Espírito “Amigo dos Homens”, de que fala o Livro da Sabedoria, “não deixa impune o blasfemo por seus propósitos”. 
O amor de Deus para conosco, Sua bendita, santa e inefável filantropia, não nos dispensa de caminhar na verdade do Criador, mas, pelo contrário, exige que nos coloquemos no caminho da conversão! Somente nos convertendo ao que o Senhor pensou para nós é que seremos nós mesmos e viveremos na verdade de Deus, que é a nossa verdade!
Atenção: não é a nossa “verdade” que se torna Verdade de Deus, mas a Verdade de Deus, que deve plasmar a nossa verdade… Caso contrário, nossa verdade não passa de mentira, ilusão, idolatria e, portanto, blasfêmia!

“Salvação” é a palavra chave do Evangelho, pois “o desejo de Deus é que todos sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,4);
“conversão” é a palavra indispensável, que diz se alguém aceita ou rejeita a salvação! Não há, não pode haver salvação sem conversão!
E conversão significa sair de mim do meu jeito
para ir para mim mesmo do modo de Cristo,
significa sair da minha lógica para entrar na lógica de Cristo!

E qual é a lógica de Cristo?
Aquela que aparece nas Escrituras como escutadas, cridas, rezadas, contempladas, vividas e ensinadas perenemente pela Igreja, dentro da Tradição Apostólica!
Fora disso, não há Escritura:
há confusão,
há arbitrariedade,
há fantasias humanas,
há manipulação miserável da Palavra de Deus,
mesmo com capa de piedade ou erudição!

Assim, o Deus que pelo Espírito de Sua Sabedoria (isto é, o Pai, que pelo Espírito do Seu Filho) a todos deseja salvar, espera de nós uma resposta de conversão! E quando o homem se fecha na sua própria lógica, no seu próprio critério, no seu próprio pensamento levado pelo vento, é punido, recebe na própria carne da vida a correção do Senhor Deus!

O Senhor nos conhece, mais que nós mesmos nos conhecemos,
o Senhor sabe a medida do homem, mais que os filósofos, os psicólogos, o antropólogos, os sociólogos, os teólogos…
“Porque Deus é a testemunha de seus rins”, isto é, dos seus instintos, dos seus impulsos mais profundos, dessas tendências mais ancestrais,
“perscruta seu coração segundo a verdade”, isto é, perscruta o pensamento do homem, sua lógica, seus critérios e intenções, medindo-os não pelo que o homem pensa, não pelas opiniões da maioria, não pelo politicamente correto, não pelas taras da moda, criadas pela cegueira humana e por sua estreiteza de coração, mas medindo-os “segundo a Verdade”, isto é, segundo o critério do próprio Deus, que é Amor e Verdade: Amor verdadeiro e Verdade amorosa!
“E ouve o que diz a sua língua”: então, o Senhor é testemunha dos nossos rins (instintos, impulsos, tendências, paixões, perscrutador do nosso coração (pensamento, raciocínio, projetos, lógica que nos move) e conhecedor das nossas palavras (aquilo que exprimimos, comunicamos, difundindo a comunhão ou a divisão, a verdade ou a mentira, o amor ou o ódio).

Bendita seja a santa Palavra do Eterno, que é luz para nossos passos nos escuros caminhos da história! “Quem Me segue, não andará nas trevas, mas terá a luz da Vida” (Jo 8,12).

Olhando a nossa Sabiaguaba, nos perguntamos: “Cadê a gestão?”

O título original deste texto, do Jornal O Povo publicado no site em 16 de junho de 2017, é “Cadê a gestão?”.

 

Demitri Túlio, repórter especial e cronista do O POVO

Enquanto o prefeito Roberto Cláudio (PDT) não assumir para si que o Parque Natural das Dunas da Sabiaguaba tem de ser cuidado como um patrimônio ambiental de Fortaleza, seus gestores auxiliares continuarão fazendo de conta que administram o equipamento com um conselho gestor inoperante. Onze anos depois da criação do parque, nunca se nomeou um administrador; não existe sede; não há cerca delimitando os 467,6 hectares; não há sinalização indicando as trilhas; não há gestão sustentável dos resíduos sólidos; não há normas sustentáveis para o uso turístico, de lazer e de pesquisa; não há segurança; não há projetos para captação de recursos federais ou internacionais voltados para questões ambientais…

Não há nada que indique que ali, naquele pedaço exuberante entre dunas, praia, rio, mangue e vegetação de tabuleiro e restinga, existe uma Unidade de Conservação de Proteção Integral ligada ao Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Snuc). Quem já foi ao Parque Nacional de Ubajara (apesar das precariedades), já foi ao Parque Nacional de Foz do Iguaçu, ao Central Park, que foi à Reserva Serra das Almas (Crateús) sabe do que estou falando. O prefeito sabe. O que temos hoje no Parque da Sabiaguaba são violações à legislação ambiental e ao plano de manejo (2010). O cenário é de velhas e novas invasões de terra, desmonte de dunas e destruição da vegetação por veículos, construção irregular de uma rodovia entre dunas e uma série de desmandos porque falta gestão. Caro prefeito, o senhor poderia encarar o Parque da Sabiaguaba como tomou para si a questão da mobilidade em Fortaleza. Não é a ideal ainda, mas há um indicativo sincero de querer mudar uma situação insustentável.