Dom José Antônio: “Caminhamos com Maria, no Ano Nacional Mariano.”

Editorial publicado no site da Arquidiocese de Fortaleza dia 12/07/2017.

Estamos vivendo o Ano Nacional Mariano. Nele comemoramos os Jubileus Centenários das manifestações de Nossa Senhora: 100 anos de sua aparição aos pastorinhos em Fátima – Portugal e 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora da Conceição, chamada Aparecida no Brasil.

De modo especial neste ano gostaríamos de motivar a nossa “Caminhada com Maria” realizada na celebração de Nossa Senhora da Assunção, Padroeira da Cidade de Fortaleza, nossa Mãe, Mãe da Igreja, na mesma celebração jubilar.

Há quize anos estamos, Igreja de Deus em Fortaleza, realizando esta manifestação pública de caminho com Maria, a Mãe de Jesus dada a nós no momento redentor da cruz (cf. Jo 19, 25-27). Verdadeira discípula do Senhor, ela nos ensina com seu seguimento de Jesus o nosso próprio seguimento de discípulos. De fato, Jesus nos disse: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida…(Jo 14,6a). E do próprio testemunho da Palavra de Deus vemos Maria no seguimento perfeito deste Caminho em todos os seus passos: do nascimento e infância, pela vida pública no anúncio do Evangelho, na paixão e morte de cruz até a glória da ressurreição.

“Maria caminha conosco no Caminho que é Jesus”.  Este é o tema da Caminhada com Maria 2017.

Não há outro caminho para o Pai, como afirmou o próprio Jesus: “ …ninguém vai ao Pai se não por mim.” (Jo 14,16b). Por Jesus que é o Caminho se faz estrada, por Ele que é a Verdade se tem a luz para se ver e escolher a realidade na qual viver. E é Ele mesmo a Vida Verdadeira, Eterna, Plena.

Nossa Senhora, a Mãe de Jesus, foi a primeira a conhecer e a se lançar por este Caminho, assim como todos somos chamados a tomar esta mesma direção. E podemos dizer que ela caminha conosco e nos precede no seguimento de Jesus, seu filho e nosso Senhor.

De Maria se aprende a direção, a realização da vontade de Deus expressa em Seu Filho e acolhemos a Vida Eterna, a nova vida que Jesus veio trazer a toda a humanidade.

O Santo Rosário, esta contemplação da Verdade no Caminho que é Jesus, propõe maior conhecimento dos mistérios de nossa redenção: desde o acolhimento da Palavra de Deus que em nós desperta a firmeza da Fé, pelo caminho no seguimento de Jesus que dá a alegria da Esperança, até a solidariedade na Caridade que nos faz viver a Vida de Deus.

Com meditações colhidas da Palavra de Deus, do Ensinamento da Igreja, na contemplação e oração, nos fazemos abertos à ação do Espírito Santo. Como em Maria, quer se encarnar Jesus em nós, fazendo-nos na misericórdia um com Ele e entre nós – seu Corpo, sua Igreja.

“Como é que a Mãe do meu Senhor vem me visitar?” (cf. Lc 1, 43.)

Desde o início de seu caminho na Vontade de Deus, Maria se faz visitadora para anunciar a Boa Nova que nela se encarnou e para servir com amor. Assim visita Isabel para proclamar a misericórdia de Deus que se estende de geração em geração e que agora vem na humildade de sua serva para fazer as maravilhas do Seu Reino entre os homens.

Esta atitude de visita, de ir ao encontro com amor, Maria a viverá sempre: no cumprimento dos mandamentos do Senhor, na solicitude pelo bem dos que carecem de alegria e felicidade – assim nas bodas de Caná da Galileia – percebendo as necessidades e intercedendo pelos carentes e necessitados, encaminhando-os a fazer tudo o que o Senhor, que é seu filho, disser. Maria seria a contínua visitadora até aos pés da cruz do filho sacrificando pela redenção da humanidade, e acompanhará a comunidade dos discípulos que se regozijam com a ressurreição de Jesus, com a efusão do Seu Espírito Santo e na missão do Evangelho por todo o mundo. Mãe da Igreja nascente a acompanhará em seus primeiros passos rumo à humanidade inteira.

E na História da Salvação que continua na vida da Igreja de Jesus, será ela mesma ainda, por graça divina, a visitar de tantas maneiras os filhos por toda a terra, para reconduzi-los a Jesus e Seu Evangelho de amor. Será sempre a Mãe que une e reúne a família em suas vicissitudes no caminhar da vida. Ela recolhe os pedaços do que foi disperso, ela anima os enfraquecidos, ela reconduz à unidade os filhos contrapostos entre si.

Esta missão mariana a comemoramos nos 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida nas encruzilhas do Brasil ainda colônia; nos 100 anos de suas aparições em Fátima nos inícios do século XX, ferido de morte por guerras mundiais que dividiam irmãos e dizimavam multidões. A Mãe quer estar com os filhos para reconduzi-los ao Pai e reconciliá-los entre si.

Como ainda hoje necessitamos deste carinho e desvelo materno! Por isso clamamos para que Maria, a Mãe de Jesus e da humanidade resgatada nEle, esteja conosco neste vale de lágrimas destinado a ser paraíso de Deus.

Desejamos que todos possam melhor colher os frutos de nossa redenção que o Senhor disponibiliza aos que se abrem ao Seu Amor.

“Como é que a Mãe do meu Senhor vem me visitar?” (cf. Lc 1, 43.)

Que esta admirável exclamação nos faça acolher de coração Aquele que é “o Caminho, a Verdade e a Vida.”

+ José Antonio Aparecido Tosi Marques
Arcebispo Metropolitano

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Meditação do 16º. Domingo do Tempo Comum

Continuamos, neste Domingo, a escutar o Senhor que, sentado na barca, nos fala do Reino dos Céus… Permaneçamos atentos, como aquela multidão em pé, à beira-mar, embevecida: “Nunca nenhum homem falou assim…”

Hoje, o Senhor nos apresenta três parábolas, todas revelando, descortinando os mistérios do Reino dos Céus: a do trigo e do joio semeados no campo do mundo e do nosso coração, a do grão de mostarda que cresce a abriga as aves dos céus e, finalmente, a do tiquinho de fermento que leveda toda a massa… É assim o Reino dos Céus, o Reino de Deus!

As três parábolas mostram a fraqueza do Reino, sua fragilidade escandalosa, mas também sua força invencível, seu poder, sua capacidade de tudo impregnar e transformar, até chegar à vitória final. Só que para compreender isso – os mistérios do Reino -, é necessário ter a paciência, a sabedoria divina, fruto do Espírito em nós, que nos dá a capacidade de acolher os tempos e modos de Deus! Mas, vamos às parábolas.

Primeiro, a do trigo e do joio. Que nos ensina aqui o Senhor? Que lições nos quer dar?
Em primeiro lugar: Deus não é inativo, indiferente ao mundo, à nossa vida de cada dia. No Seu Filho, semeou o trigo do Reino no campo deste mundo e no campo do nosso coração. Como diz o Livro da Sabedoria, na primeira leitura de hoje: “Não há, além de Ti, outro Deus que cuide de todas as coisas!” Sim: nosso Deus é um Deus presente, um Deus atuante, um Deus que cuida de nós com amor e com amor vela por Suas criaturas! Não duvidemos, não percamos de vista esta realidade: num mundo de cimento armado e homens bombas, fome, mortes e petrolões, Deus está presente, Deus cuida de nós: inspira o bem aos nossos corações, dá-nos o desejo da paz, da beleza, da verdade, da justiça, do amor, faz-nos que ansiemos pelo Infinito…
Uma segunda lição desta parábola: no mundo e no coração de cada um de nós, infelizmente, há o joio: o mal, o pecado, a treva. Por favor, não mascaremos o mal do mundo nem o mal do nosso interior! Não chamemos de bem ao que é pecado, não queiramos que pareça verdade ao que o Senhor julga como mentira, não finjamos ser reto o que o Santo julga torto! É preciso desmascará-lo, é preciso chamá-lo pelo seu nome! Não mascare, irmão, irmã, o mal da sua vida, do seu coração, da sua consciência!
Esse mal não vem de Deus; vem do Antigo Inimigo, do Diabo, do Sedutor, Pai da Mentira, que, mais esperto que nós, tantas vezes faz o mal nos parecer bem e até achar que nós mesmos estamos acima do bem e do mal! O Diabo é assim: semeia o mal e faz com que ele se confunda com o bem, como o trigo e o joio. E nós, tolos, confundimos tudo e pensamos ser bem ao que é mal – mal semeado pelo Maligno!
Por favor, olhe o seu coração: não se engane, não finja, não mascare, não minta para você mesmo! Chame o mal de mal e o bem de bem!
Numa terceira lição, a parábola de Jesus nos ensina a paciência, sobretudo com o mal que vemos no mundo e nos outros! Somos impacientes, caríssimos, e até julgamos Deus e o Seu modo de agir no mundo. Cuidado: a paciência de Deus salva e a impaciência nossa coloca a perder! Jesus nos pede que confiemos em Deus, que acreditemos na Sua ação e nos Seus desígnios, tempos e modos: Não há, além de Ti, outro Deus que cuide de todas as coisas e a quem devas mostrar que Teu julgamento não foi injusto. A Tua força é princípio da Tua justiça e o Teu domínio sobre todos Te faz para com todos indulgente. Dominando Tua própria força, julgas com clemência e nos governas com grande moderação; e a Teus filhos deste a confortadora esperança de que concedes o perdão aos pecadores”.

Escutemos ainda um pouco o Senhor; aprendamos com as parábolas do grão de mostarda e do fermento que leveda a massa. Precisamente porque o modo de pensar e agir de Deus não é como o nosso, o Reino dos Céus aparece tão frágil, tão inseguro, tão precário, pequenino como um grão de mostarda, pouquinho como uma pitada de fermento! E, no entanto, será grande, será forte, será vitorioso e abrigará as aves dos céus! Será eficaz, forte, e penetrará toda a massa deste mundo! Mas, quando, Senhor? Por que demoras? Por que parece que estás longe? Por que pareces dormir? Observem, irmãos, que em todas as parábolas do Reino, Jesus deixa claro que, ao fim, haverá um julgamento de cada um de nós e o Reino triunfará!

Mas, para não descrer, para não desesperar, para não ver e sentir simplesmente na nossa medida e com nossas forças, supliquemos que o Espírito do Ressuscitado venha nos socorrer, “pois não sabemos o que pedir, nem como pedir!” Só o Espírito do Cristo, o Semeador do Reino, pode nos fazer perceber os sinais do Reino, os sinais de Deus no mundo e na vida. Só o Espírito nos sustenta, fazendo-nos caminhar sem desfalecer, de esperança em esperança… Só o Espírito nos ensina as coisas do Reino: Ele torna o Reino presente porque torna Jesus presente. Por isso mesmo, em vários antigos manuscritos do Evangelho de São Lucas, na oração do Pai-nosso, onde tem “Venha o Teu Reino” aparece “Venha o Teu Espírito”! É o Espírito de Cristo que torna o Reino presente em nós e no mundo. Deixemo-nos, portanto, guiar por Ele, pois “o Reino de Deus é paz e alegria no Espírito Santo!”

Eis, caríssimos! Aprendamos do Senhor, vigiemos e acolhamos Sua Palavra. Se formos fieis e perseverarmos até o fim, escutaremos cheios de esperança Sua promessa, que encerra o Evangelho de hoje: “… então, os justos brilharão como o sol no Reino do seu Pai!” Que assim seja! Amém!

Por Dom Henrique Soares da Costa, bispo de Palmares / PE.