Sobre o livro de Tobias, por Dom Henrique

Textos publicados na rede social Facebook, em datas diferentes.

Na leitura da Missa do dia seis de junho (Tb 2,9-14), irada com o esposo, a mulher de Tobias, cego e pobre, passa-lhe no rosto a inutilidade de suas boas obras e de sua devoção para com Deus: “Onde estão as tuas esmolas? Onde estão as tuas obras de justiça?”

Esta atitude desprovida de sabedoria e piedade não está tão longe de nós como se poderia pensar…

Carregamos no íntimo do coração uma percepção de que nossa piedade e amizade para com o Senhor nos protegem de todo o mal e nos colocam em segurança, quase que ao resguardo das inseguranças e incertezas da vida. Afinal, o Senhor não é bom? Não é amor fiel para com Seus amigos?

E, então, quando nos sobrevêm os desastres, as situações de dor e escuridão, quando nos sentimos como pobres joguetes das vicissitudes absurdas da existência, há, sim, uma tentação de perguntar por Deus e de nos perguntar para que serviu nossa amizade com Ele, nossa piedade, nossa entrega a Ele, nossa confiança no Seu amor… Podemos mesmo chegar ao extremo de afirmar: “Deus é o grande Ausente! Ele não existe!”

Nunca estaremos totalmente livres destas perguntas. Este sentimento, à beira do abismo da descrença, nunca deixará totalmente o coração do crente…

A mulher de Tobias é insensata! Nas Escrituras Santas, a amizade com Deus não é uma relação de troca, não é uma busca de benefícios.
O verdadeiro crente afirma a existência atual, atuante, presente de Deus, que tudo envolve e tudo penetra com Sua amorosa providência; mas também tem consciência de que Este Deus bendito nos ultrapassa no Seu modo de ser presente e de agir… Deus não pode ser medido, esquadrinhado por nossa lógica e nossas medidas!

Seu amor providente para com todos, para comigo, já se revelou suficientemente na Cruz e na Ressurreição de Jesus, o Filho amado. O verdadeiro crente transcende o pobre limite de uma lógica à medida humana e joga-se na certeza de que Deus É e Seu Nome é Amor: Fidelidade, Providência, Presença!

Há uma frase do Livro de Jó que exprime isto quase que de modo absurdo, mas saborosamente verdadeiro, deliciosamente crente, fiel ao sentido mais profundo do crente ao seu Senhor: “Ainda que Ele me mate, eu esperarei Nele…” (13,15) Cristo, nosso Senhor, viveu isto com intensidade máxima na Cruz; e experimentou na Sua carne o quanto para além de toda escuridão, toda dor e toda morte, a fidelidade do Senhor Deus é para sempre e se torna sempre ressurreição.

Assim, que os incrédulos zombem, que os bitolados na bitola estrita da humana razão ridicularizem… Nós, coloquemos no Senhor a nossa esperança e Nele somente nos apoiemos:
“Ainda que que a figueira não dê fruto
e não haja fruto na vinha,
ainda que decepcione o fruto da oliveira
e os campos não deem de comer,
ainda que as ovelhas desapareçam do aprisco
e não haja gado nos estábulos,
eu me alegrarei no Senhor,
exultarei no Deus da minha salvação!” (Hab 317s).

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No capítulo 3 de Tobias, que escutamos na quarta-feira passada, Tobit, o velho pai de Tobias, e Sara, jovem judia piedosa, choravam diante de Deus a sua miséria: Tobit chorava pela cegueira, que o levara à pobreza; Sara chorava pela vergonha de ser viúva pela sétima vez; viúva e sem filhos…

Tratam-se aqui de duas situações irremediáveis. Quem está livre de experimentar isto? A vida não é segura, não é um filme com final feliz garantido. Na existência, muitas vezes não conseguimos compreender o que nos acontece e o motivo e o sentido desses acontecimentos cruéis… É incerta e fugir a vida do homem sobre a terra!

E, no entanto, seja Tobit quanto Sara não se fecham na sua angústia, mas se abrem para o Senhor Deus em oração.
Ambos não suportam mais a vida, ambos pedem a morte, mas pedem-na a Deus! Não hesitam em derramar o coração diante do Senhor, não temem apresentar-Lhe a sua causa.

É uma lição preciosa para nós: seja na vida que na morte, seja na alegria que na tristeza, seja na luz que na treva, nosso caminho está diante de Deus, nossa vida está nas mãos do Onipotente.

Aprendamos com esses corantes, esses verdadeiros crentes, a nunca expulsar o Senhor do todo da nossa existência: vivamos sempre diante Dele, coloquemos sempre na Sua presença todos os aspectos e situações do nosso ser e do nosso viver. Atenção para que não haja compartimentos da nossa vida que desejemos esconder Daquele que sonda todas as coisas e para Quem a noite é clara como o dia! Nossa fé no Senhor e nossa relação com Ele devem iluminar toda a nossa existência!

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