O Reino, como uma rede jogada no mar…

Por Dom Henrique Soares, bispo de Palmares / PE.

E o Mestre contou-lhes mais uma parábola, tão bela, tão da paisagem da Galiéia, tão da vida deles:

“O Reino dos Céus é ainda semelhante a uma rede lançada ao mar, que apanha de tudo”.
Que graça, que escândalo, esse Reino!
Graça porque apanha de tudo; o coração do Pai é amplo, como uma casa grande e espaçosa que tem muitas moradas – nele há lugar até pra mim, pra você, que agora me lê…
Mas, pensando bem, essa mesma graça nos escandaliza tanto: por que tantos pecadores na Igreja, por que tanta gente escandalosa que temos que aceitar e acolher como nossos irmãos? Escândalos nas comunidades, escândalos no clero, escândalos na vida religiosa, escândalos no meu coração…
Por que, Senhor, toleras tudo isso? Por que a rede do Reino que anuncias e trazes também pesca, recolhe e acolhe aqueles que, por mim, estariam bem longe, abandonados no mar alto?
Escandalizamo-nos porque queremos a misericórdia para nós e, para os outros, a dureza da justiça.
Mas, o coração de Deus não é como o nosso… O coração do Deus cujo Reino Jesus anuncia e traz é o coração do Abbá, o coração do Pai, do Papai de Jesus!

“Quando está cheia, puxam-na para a praia e, sentados, juntam o que é bom em vasilhas, mas o que não presta, deitam fora. Assim será no fim do mundo: virão os anjos e separarão os maus dentre os justos e os lançarão na fornalha ardente”.
Um dia (não dia nosso, mas Dia de Deus, dia e hora que somente o Altíssimo conhece) a rede do Reinado de Deus estará cheia: este tempo terminará, a história desembocará na Glória… A rede será puxada…
Quando, Senhor? – Não sabemos; não nos pertence!
De que modo, Senhor? – Não nos compete saber: pertence aos segredos de Deus!
Bendito sejas Tu, Senhor nosso Deus, que guardas os segredos!

A rede será puxada…
Sou alagoano, da beira de mar, dam minha Maceió, das praias que encantam o coração e fá-lo cantar ao Infinito… Já vi tantas vezes puxarem a rede. Ela é grande, ampla… Como demora a chegar à praia… Sinto uma impaciência danada, esperando para vê-la chegar com a pesca farta… Em geral, impaciente, vou-me embora antes de vâ-la chegar à praia…
Só Deus sabe a hora em que a rede chegará à praia da Glória, da plenitude do Seu Reino… Chegará, certamente; mas na hora que Ele achar conveniente!
E, então, sim: os peixes bons serão separados dos maus – haverá sim, um discernimento; ocorrerá sim, um juízo de Deus!
Os peixes bons serão recolhidos nos cestos do coração do Pai – há tantos cestos, tantas moradas…
Mas, os peixes ruins serão jogados fora, pois servem somente para o fogo queimar…

Agora, Jesus olha docemente Seus discípulos. Silêncio. Eles estão pensativos, absortos, perdidos e encontrados nos mistérios do Reino que o Senhor acabara de lhes revelar…
E Jesus, o Salvador, o bendito e santo Messias, pergunta-lhes – e a mim também, e a você também – placidamente, com voz mansa e terna: “Entendestes todas essas coisas?”

– Ó Jesus, que eu compreenda! dá-me um coração que Te escute e Te compreenda, queacolha o Reino que vieste trazer com Tua santa Encarnação, Paixão, Morte, Ressurreição e o Dom do Teu Espírito!
Neste mundo descrente, que eu creia;
neste mundo impaciente, que eu tenha a paciência do Pai;
neste mundo que grita que só há um reinado do homem, que eu vislumbre o Reino que anuncias e revelas; por ele viva e nele espere e dele seja um Dia participante!

Publicado em sua Página no Facebook dia 28/06/2016.

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Pregamos a Cristo até os confins da terra

 

Das Homilias de Paulo VI: Homilia em Manila, pronunciada a 29 de novembro de 1970.

Ai de mim se não evangelizar! Por ele, pelo próprio Cristo, para tanto fui enviado. Eu

sou apóstolo e também testemunha. Quanto mais distante o país, quanto mais difícil a

missão, com tanto mais veemência a caridade me aguilhoa. É meu dever pregar seu

nome: Jesus é Cristo, o Filho do Deus vivo. É aquele que nos revelou o Deus invisível,

ele, o primogênito de toda criatura, ele, em quem tudo existe. É o mestre redentor dos

homens: por nós nasceu, morreu e ressuscitou.

É ele o centro da história e do universo. Ele nos conhece e ama, o companheiro e o

amigo em nossa vida, o homem das dores e da esperança. Ele é quem de novo virá, para

ser o nosso juiz, mas também – como confiamos – a eterna plenitude da vida e nossa

felicidade.

Jamais cessarei de falar sobre ele. Ele é a luz, é a verdade,mais ainda, é o caminho, a

verdade e a vida. É o pão e a fonte de água viva, saciando a nossa fome e a sede. É o

pastor, o guia, o modelo, a nossa força, o nosso irmão. Assim como nós, mais até do que

nós, ele foi pequenino, pobre, humilhado, trabalhador, oprimido, sofredor. Em nosso

favor falou, fez milagres, fundou novo reino onde os pobres são felizes, onde a paz é a

origem da vida em comum, onde são exaltados e consolados os de coração puro e os

que choram, onde são saciados os que têm fome de justiça, onde podem os pecadores

encontrar perdão e onde todos se reconhecem irmãos.

Vede, este é o Cristo Jesus, de quem já ouvistes falar, em quem muitíssimos de vós já

confiam, pois sois cristãos. A vós, portanto, ó cristãos, repito seu nome, a todos o

anuncio: Cristo Jesus é o princípio e o fim, o alfa e o ômega, o rei do mundo novo, a

misteriosa e suprema razão da história humana e de nosso destino. É ele o mediador e

como que a ponte entre a terra e o céu. É ele, o Filho do homem, maior e mais perfeito

do que todos por ser o eterno, o infinito, Filho de Deus e Filho de Maria, bendita entre

as mulheres, sua mãe segundo a carne, nossa mãe pela comunhão com o Espírito do

Corpo místico.

Jesus Cristo, não vos esqueçais, é a nossa inalterável pregação. Queremos ouvir seu

nome até os confins da terra e por todos os séculos dos séculos!

Entendendo a Palavra…

Do Comentário à Primeira Leitura [1Rs 21,17-29] de hoje, 14/06/2016 (Terça-Feira da 11ª Semana do Tempo Comum), extraído do Missal Cotidiano – Missal da Assembleia Cristã (2012, p.907):

Deus crê sempre na capacidade de redenção do homem. Em toda atitude atribuída a Deus pela Escritura há sempre um profundo amor a cada homem, “obra de suas mãos”. Deus não se limita a olhar o homem, trabalha nele. Existe a crônica superficial, registrada por nossos meios de comunicação, e a crônica em profundidade, conhecida em sua totalidade só por Deus. Quando esta brota na superfície, chega a nos surpreender.

Deus não se repete nunca, é novidade, vivacidade, porque amor. Olha sempre “com olhos novos” para toda criatura. Chama-nos também a participarmos deste seu olhar. Conservar para cada encontro a limpidez do olhar, sem preconceitos. Saber renovar – se no amor até nas circunstâncias mais duras. Não por nossa força, mas em humilde adesão ao Único que “nos vê” de verdade.