Meditação para este XXXIII Domingo Comum por Dom Henrique

Dom Henrique Soares da Costa é bispo de Palmares/PE.

De um modo ou de outro, a Palavra do Senhor sempre nos fala da vida, nos revela o sentido, nos mostra o caminho. Hoje, o Cristo Senhor nos apresenta a existência como um punhado de talentos, de dons, de oportunidades que a providência gratuita e misteriosa de Deus colocou em nossas mãos para que façamos frutificar.
Certamente, jamais compreenderemos por que nascemos desse modo ou somos daquele outro. A vida é um mistério tremendo, Irmãos; tão tremendo, que o Salmista geme, entre admirado e oprimido: “Ainda embrião Teus olhos me viram e tudo estava escrito no Teu livro; meus dias estava marcados antes que chegasse o primeiro. Como são profundos para mim Teus pensamentos, como são grandes seu número, ó Deus!” (Sl 139/138,16s) Podemos, no entanto, ter a certeza de que o Senhor nos deu uma vida, “a cada um de acordo com a sua capacidade”.
Ora, é esta vida, dom de Deus, fruto de um desígnio de amor sem fim, que cada um de nós deve responsavelmente cultivar e fazer frutificar em benefício nosso de dos irmãos. Na mulher forte e industriosa da primeira leitura, aparece um exemplo de alguém que não se contenta simplesmente em passar pela vida, mas vai tecendo o fio da existência com as pequenas fidelidades de cada dia: como essa mulher da leitura, devemos nós, tornar nossa vida fecunda de bem, fecunda de serviço a Deus e aos irmãos. Do mesmo modo, a segunda leitura chama-nos atenção para o fato que nos serão pedidas contas da vida, dom recebido de Deus. Daí, o conselho: “Não durmamos, como os outros, mas sejamos vigilantes e sóbrios”.

Caríssimos, uma das grandes tentações do mundo atual é pensar que a existência é nossa de modo absoluto, como se cada um de nós se tivesse criado a si próprio, dado a si próprio a existência. Fechados em si próprios, os homens pensam que podem ser felizes construindo a vida de seu próprio modo, à medida de suas próprias ideias, medidas e objetivos. Ilusão! A vida é dom de Deus e somente nos faz felizes se dela fizermos um diálogo amoroso com o Senhor, Autor e Doador de nosso ser. Mais que talentos na vida, o Senhor nos concedeu a própria vida como um precioso talento! Desenvolvê-lo e ser feliz e buscar não a nossa própria satisfação, não nossa própria medida, não nosso próprio caminho, mas fazer da existência uma busca amorosa e cheia de generosidade da vontade de Deus.
Eis! Somente seremos felizes e maduros quando tivermos a capacidade de arriscar verdadeiramente nos perder, nos deixar para nos encontrar no Senhor, alicerce e fonte de nossa vida. Eis o verdadeiro investimento!
Infelizmente, a dinâmica do mundo hodierno, pagão e ateu, não no ajuda nessa direção. Há distração demais, novidade demais, produto demais a ser consumido; há preocupação demais com uma felicidade compreendida como satisfação de nossos desejos, carências e vontades. Há consciência de menos de que a vida é dom e serviço, doação e abertura para o Infinito; há percepção de menos de que aqui estamos de passagem e de que lá, junto ao Senhor, é que permaneceremos para sempre. Atolamo-nos de tal modo nos afazeres da vida, no corre-corre de nossas atividades, no esforço por satisfazer nossas vontades, na busca de nossa autoafirmação, que perdemos a capacidade de compreender realmente que somos passageiros e viandantes numa existência breve e fugaz que somente valerá a pena será vivida na verdade se for compreendida como abertura para o Senhor e, por amor a ele, abertura generosa e servidora para os outros.

Caríssimos, estejamos atentos à advertência do Apóstolo: “Vós, meus irmãos, não estais nas trevas, de modo que esse dia vos surpreenda como um ladrão. Todos vós sois filhos da luz e filhos do dia” O Dia é Cristo, a Luz é Cristo. Viver na luz, viver no dia é viver na perspectiva de Cristo Jesus, é valorizar o que Ele valoriza e desprezar o que Ele despreza. Filhos da Luz, filhos do Dia, do Dia eterno – eis o que deveríamos ser! Deveríamos viver os dias da nossa vida iluminando-os com a esperança do Dia eterno, que levará à consumação e à plenitude os dias fugazes de nossa existência! Mas, com tanta frequência nossa mente e nosso coração, nossos pensamentos e nossos afetos encontram-se entenebrecidos como o dos pagãos… Quão grave para nós, porque conhecemos a Luz, que cremos no Dia que é o Cristo-Deus!

Não nos iludamos, não façamos de conta que não sabemos: todos haveremos de dar contas a Deus de nossa existência, do sentido que lhe demos, daquilo que nela construímos. Queira Deus que nossa vida seja como a do Cristo Jesus: uma verdadeira e amorosa abertura para Deus e uma abertura para os outros! Queira Deus que consigamos, iluminados pela Sua Palavra, nutridos pela Sua Eucaristia e animados pela oração diária, viver nossa existência na perspectiva de Deus, de tal modo que vivamos, vivamos de verdade, vivamos em abundância, vivamos uma vida que valha a pena!
Que o Senhor no-lo conceda pela Sua graça. Amém.

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Dom Henrique Soares: “Tua Palavra é Vida para a minha vida”

A Palavra de Deus que, em última análise, é Cristo, é a Verdade da nossa vida!
Isto significa que somente à luz da Palavra, poderemos encontrar o verdadeiro sentido da existência e, caminhando pelo caminho reto, encontrar a plenitude da vida e nela viver.

Se hoje, a angústia, verdadeiro monstro que nos ameaça, é a falta de sentido, a Palavra, que é Cristo, aparece, precisamente como o Sentido!
Então, viver na Palavra é viver na verdade da própria existência, é viver a vida no sentido que Deus pensou para nossa existência e, assim, viver autenticamente, viver na verdade, sem falsear a própria vida. O fruto disso é a paz!
Era isto que São Jerônimo queria dizer à Paula, sua discípula: “Que mel, que manjares podem ser mais doces que conhecer a providência de Deus, penetrar Seus segredos, examinar o pensamento do Criador e ser instruído nas palavras do Senhor, objeto de zombaria dos sábios deste mundo, mas que estão cheias de sabedoria espiritual? Que outros tenham suas riquezas em outros lugares, bebam em copos engastados de pérolas, brilhem com a seda, gozem de popularidade e, por causa da variedade de prazeres, não sejam capazes de vencer sua opulência! Nossas delícias sejam meditar na lei do Senhor dia e noite, chamar à porta que se abre, receber os pães da Trindade e, com o Senhor à frente, pisar as ondas deste século”.

Nós somente seremos nós mesmos na medida em que alicerçarmos nossa existência na Palavra do Senhor: ela nos abre o sentido da vida, o rumo da existência, a direção de nossos passos, dando-nos, assim, o acesso ao país da paz e da salvação!

Poderíamos nos perguntar:
Tenho procurado pelo sentido de minha vida?
Onde o encontro?
Tenho esforçado-me para ver e sentir a partir da Palavra de Deus, que é o próprio Cristo?
Cristo – Sua Pessoa, Suas palavras, sua vida… – tem sido o referencial de minha existência?
Tem sido Ele minha verdade e Vida da minha vida?

Mas, viver na Palavra exige frequentar a Palavra, isto é, a leitura contínua, fiel e crente da Escritura Sagrada. É o que tradicionalmente se chama lectio divina. Trata-se da reverente, piedosa, perseverante e humilde busca da Palavra nas palavras da Escritura!
Ler, escutar, reter, aprofundar, viver a Palavra de Deus contida na Escritura, mergulhar nela com fé e amor: nisto consiste, essencialmente, a lectio divina.

É preciso que tenhamos bem claro que abrir a Escritura é abrir o Coração de Deus, é encontrar a Deus; esta é o livro dos que buscam o Senhor! Como dizia Orígenes: “Nas Escrituras, com o rosto descoberto, contemplamos a Glória do Senhor”.

Por Dom Henrique Soares da Costa, bispo de Palmares/PE.

Pastoral da Criança realiza atendimento no Jardim Guanabara nesta terça-feira

A Pastoral da Criança, entidade fundada há mais de 30 anos, realiza, em parceria do Instituto Vida Cidadã (IVC), nesta terça-feira (7), a partir das 17h, na Igreja da Comunidade Santo Antônio, no bairro Jardim Guanabara, a celebração da vida. É um momento de oração, atendimento às comunidades carentes com o serviço de peso e medida das crianças, rodas de conversa com os pais e brincadeiras.

Também será oferecido o serviço de escovação dental à população e disponibilizado um coletor da Campanha “Recicle: faça a natureza sorrir”, do Instituto Vida Cidadã, uma iniciativa inédita no Ceará, articulada pelo presidente do IVC, Tadeu Oliveira. A iniciativa visa arrecadar tubos vazios de pasta dental. As embalagens serão transformadas em cadeiras de pesagens, que, por sua vez, serem doadas à Pastoral da Criança.

A Pastoral da Criança está presente em 73 paróquias instaladas em 26 municípios. Mas nem todas contam com a cadeira para fazer a pesagem das crianças.

FONTE: Blog do Eliomar.

Entre Deus e César

Por Dom Henrique Soares, bispo de Palmares/PE a reflexão do XXIX Domingo Comum.

“Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Eis, caríssimos irmãos no Senhor, a frase que resume perfeitamente a Liturgia da Palavra deste Domingo. Frase tão conhecida, tão repetida e tão poucamente compreendida! E, no entanto, uma das frases mais radicais e revolucionárias do Evangelho; frase que bem serve de bandeira para os crentes do mundo descrente de hoje.

Recordemos o contexto. Os inimigos de Jesus prepararam-Lhe uma inteligente armadilha.
Primeiro O elogiaram com um elogio hipócrita, mas, fiel à realidade, que nos mostra bem a grandeza de caráter do Senhor nosso: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus. Não Te deixas influenciar pela opinião dos outros, pois não julgas um homem pelas aparências”. Que belo elogio! Que belo exemplo a ser seguido!
Mas, eis que vem a armadilha: “É lícito ou não pagar o imposto a César?”
Se Jesus respondesse “sim”, seria acusado de peleguismo, de colaboracionismo com os opressores pagãos romanos, impuros e odiados pelo povo;
se respondesse “não”, seria acusado de revoltoso anti-romano diante de Pôncio Pilatos pelos Seus próprios inimigos;
se respondesse “não sei”, seria desmoralizado como um rabi incompetente e estulto.
Eis, pois: a armadilha era perfeita! Mas, a resposta de Jesus foi mais perfeita ainda, verdadeiramente admirável! Pediu uma moeda, perguntou de quem era a inscrição. Era de César, Tibério César, o Imperador dos romanos… “Então, se usais a moeda de César, é porque César é quem manda de fato! Dai, pois, a César o que é de César!” E, então vem o complemento. Impressionante: “Mas, dai a Deus o que é de Deus!”

Que significa tal resposta? À primeira vista, Jesus estaria dividindo o mundo, as realidades, em duas áreas: uma para Deus e outra para César. Deus e César, lado a lado… Nada disso!
Ao ensinar a dar a César o que é de César, o Senhor nos convida a respeitar as estruturas da sociedade em que vivemos, a levá-las a sério, a bem viver nelas. César, aqui, significa o mundo em que vivemos, com toda sua riqueza, com suas leis e dinâmicas, com sua complexidade.
César é a política, César é a pátria, a família; César são o trabalho, o emprego, o esporte que praticamos; César são os amigos e os sonhos nossos… Tudo quanto é humano e legítimo pode e deve ser apreciado e respeitado pelos cristãos. Podemos dar a César o que é de César, sem medo nem temor! Devemos respeitar as ciências e a técnica com suas capacidades e dinâmicas, devemos respeito às leis e às autoridades legitimamente construídas…
Mas, ao ensinar e exortar a dar a Deus o que é de Deus, o Senhor nos recorda com toda seriedade que somente Deus é Deus.
E o que se deve dar a Deus?
Tudo; absolutamente, tudo!
De Deus é a nossa vida, de Deus é a nossa morte, de Deus é tudo quanto temos, vivemos e somos: Dai a César o que é de César, mas recordai que também César pertence a Deus!
César não é Deus!
E aqui está o genial e admirável da resposta de Nosso Senhor. César se julgava Deus, era chamado “Divino César”, considerava-se senhor da vida e da morte! Ora, Jesus nega a César tal pretensão! César é somente César e, como César, morrerá; é pó que o vento leva! Somente o Senhor é Deus!
A ciência não é Deus, a tecnologia não é Deus, o dinheiro e o poder não são Deus, os grandes do mundo não são Deus, o congresso não é Deus, nossas leis não são Deus! Só o Senhor é Deus!
São Paulo faz eco a essas palavras de Jesus ao nos afirmar: “Tudo pertence a vós: Paulo, Apolo, Cefas, o mundo, a vida, a morte, as coisas presentes e as futuras.Tudo é vosso; mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus” (1Cor 3,21-23).

A grande tentação nossa é colocar no lugar de Deus os tantos césares da vida. Não se endeusa a ciência? Não se absolutiza a tecnologia, não se adora o sexo? Não se tem a tentação de colocar o homem, o indivíduo e seus desejos e sua lógica limitada e estreita no lugar de Deus? Os grandes do mundo – grandes pelo poder, ou pela riqueza, ou pelo sucesso – não se acham divinos, sem reconhecer, como Ciro, na primeira leitura de hoje, que tudo vem de Deus, que estamos nas Suas mãos, que tudo é, misteriosamente, fruto da Sua providência?

Cristão, tu deves participar da vida da humanidade, deves ser homem entre os homens, deves participar da construção da sociedade… Tu deves saber apreciar o que de bom e de belo existe no mundo… Mas, não te esqueças: nada disso é Deus, nada disso merece tua adoração, nada disso deve prender teu coração; tu não absolutizarás nada disso, nada nem ninguém: nem família, nem pátria, nem amigos, nem posses, ideias ou poder!
Só o Senhor é Deus!
A César, o que é de César; a Deus tudo, pois tudo é de Deus!
Viver assim é crer de verdade, é levar Deus a sério de verdade! Grande ilusão nossa é pensar que podemos colocar Deus no meio de tantos e tantos amores, de tantas e tantas paixões, fazendo dele apenas mais uma, entre tantas realidades da vida. Não! Ele é tudo, Ele é o Tudo, como dizia São Francisco de Assis: “Tu és o Bem, todo o Bem, o Bem universal!”

Caríssimos, que na oração, na experiência da vida sacramental e na escuta da Palavra do Senhor nós aprendamos e reconhecer Deus como Deus na nossa vida, para que, como aconteceu com os cristãos de Tessalônica, na segunda leitura de hoje, estejam diante de Deus sem cessar “a atuação da vossa fé, o esforço da vossa caridade e a firmeza da vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo”. Amém.

 

Meu inimigo íntimo

Meu maior inimigo sou eu mesmo,
que me busco a mim,
que desejo ser feliz de uma felicidade feita à minha medida!

Senhor, por compaixão, livra-me de mim do meu modo
para que eu me encontre a mim do modo como Tu me pensaste!

Senhor, eu sou caçador de mim:
eu, alienado, procuro a mim na minha inteireza,
na minha verdade,
procuro a mim como Tu me pensaste,
me amaste e me criaste!

Tira-me de mim segundo minha medida
e joga-me em mim na Tua medida!
E a Tua medida para mim, eu sei qual é: é o Cristo Jesus,
o Novo Adão, o Homem Perfeito,
que me revela quem eu sou e o que devo me tornar!

Assim, Senhor, na potência vitoriosa do Teu Espírito
– no Qual ressuscitaste Teu Filho Jesus –
dá-me os sentimentos de Cristo,
o pensamento de Cristo,
as atitudes de Cristo,
a vida de Cristo,
para que eu seja, enfim,
eu mesmo,
eu na minha inteira verdade,
eu como Tu sonhaste comigo!

Autor: Dom Henrique Soares, bispo de Palmares/PE.