Meditação do 16º. Domingo do Tempo Comum

Continuamos, neste Domingo, a escutar o Senhor que, sentado na barca, nos fala do Reino dos Céus… Permaneçamos atentos, como aquela multidão em pé, à beira-mar, embevecida: “Nunca nenhum homem falou assim…”

Hoje, o Senhor nos apresenta três parábolas, todas revelando, descortinando os mistérios do Reino dos Céus: a do trigo e do joio semeados no campo do mundo e do nosso coração, a do grão de mostarda que cresce a abriga as aves dos céus e, finalmente, a do tiquinho de fermento que leveda toda a massa… É assim o Reino dos Céus, o Reino de Deus!

As três parábolas mostram a fraqueza do Reino, sua fragilidade escandalosa, mas também sua força invencível, seu poder, sua capacidade de tudo impregnar e transformar, até chegar à vitória final. Só que para compreender isso – os mistérios do Reino -, é necessário ter a paciência, a sabedoria divina, fruto do Espírito em nós, que nos dá a capacidade de acolher os tempos e modos de Deus! Mas, vamos às parábolas.

Primeiro, a do trigo e do joio. Que nos ensina aqui o Senhor? Que lições nos quer dar?
Em primeiro lugar: Deus não é inativo, indiferente ao mundo, à nossa vida de cada dia. No Seu Filho, semeou o trigo do Reino no campo deste mundo e no campo do nosso coração. Como diz o Livro da Sabedoria, na primeira leitura de hoje: “Não há, além de Ti, outro Deus que cuide de todas as coisas!” Sim: nosso Deus é um Deus presente, um Deus atuante, um Deus que cuida de nós com amor e com amor vela por Suas criaturas! Não duvidemos, não percamos de vista esta realidade: num mundo de cimento armado e homens bombas, fome, mortes e petrolões, Deus está presente, Deus cuida de nós: inspira o bem aos nossos corações, dá-nos o desejo da paz, da beleza, da verdade, da justiça, do amor, faz-nos que ansiemos pelo Infinito…
Uma segunda lição desta parábola: no mundo e no coração de cada um de nós, infelizmente, há o joio: o mal, o pecado, a treva. Por favor, não mascaremos o mal do mundo nem o mal do nosso interior! Não chamemos de bem ao que é pecado, não queiramos que pareça verdade ao que o Senhor julga como mentira, não finjamos ser reto o que o Santo julga torto! É preciso desmascará-lo, é preciso chamá-lo pelo seu nome! Não mascare, irmão, irmã, o mal da sua vida, do seu coração, da sua consciência!
Esse mal não vem de Deus; vem do Antigo Inimigo, do Diabo, do Sedutor, Pai da Mentira, que, mais esperto que nós, tantas vezes faz o mal nos parecer bem e até achar que nós mesmos estamos acima do bem e do mal! O Diabo é assim: semeia o mal e faz com que ele se confunda com o bem, como o trigo e o joio. E nós, tolos, confundimos tudo e pensamos ser bem ao que é mal – mal semeado pelo Maligno!
Por favor, olhe o seu coração: não se engane, não finja, não mascare, não minta para você mesmo! Chame o mal de mal e o bem de bem!
Numa terceira lição, a parábola de Jesus nos ensina a paciência, sobretudo com o mal que vemos no mundo e nos outros! Somos impacientes, caríssimos, e até julgamos Deus e o Seu modo de agir no mundo. Cuidado: a paciência de Deus salva e a impaciência nossa coloca a perder! Jesus nos pede que confiemos em Deus, que acreditemos na Sua ação e nos Seus desígnios, tempos e modos: Não há, além de Ti, outro Deus que cuide de todas as coisas e a quem devas mostrar que Teu julgamento não foi injusto. A Tua força é princípio da Tua justiça e o Teu domínio sobre todos Te faz para com todos indulgente. Dominando Tua própria força, julgas com clemência e nos governas com grande moderação; e a Teus filhos deste a confortadora esperança de que concedes o perdão aos pecadores”.

Escutemos ainda um pouco o Senhor; aprendamos com as parábolas do grão de mostarda e do fermento que leveda a massa. Precisamente porque o modo de pensar e agir de Deus não é como o nosso, o Reino dos Céus aparece tão frágil, tão inseguro, tão precário, pequenino como um grão de mostarda, pouquinho como uma pitada de fermento! E, no entanto, será grande, será forte, será vitorioso e abrigará as aves dos céus! Será eficaz, forte, e penetrará toda a massa deste mundo! Mas, quando, Senhor? Por que demoras? Por que parece que estás longe? Por que pareces dormir? Observem, irmãos, que em todas as parábolas do Reino, Jesus deixa claro que, ao fim, haverá um julgamento de cada um de nós e o Reino triunfará!

Mas, para não descrer, para não desesperar, para não ver e sentir simplesmente na nossa medida e com nossas forças, supliquemos que o Espírito do Ressuscitado venha nos socorrer, “pois não sabemos o que pedir, nem como pedir!” Só o Espírito do Cristo, o Semeador do Reino, pode nos fazer perceber os sinais do Reino, os sinais de Deus no mundo e na vida. Só o Espírito nos sustenta, fazendo-nos caminhar sem desfalecer, de esperança em esperança… Só o Espírito nos ensina as coisas do Reino: Ele torna o Reino presente porque torna Jesus presente. Por isso mesmo, em vários antigos manuscritos do Evangelho de São Lucas, na oração do Pai-nosso, onde tem “Venha o Teu Reino” aparece “Venha o Teu Espírito”! É o Espírito de Cristo que torna o Reino presente em nós e no mundo. Deixemo-nos, portanto, guiar por Ele, pois “o Reino de Deus é paz e alegria no Espírito Santo!”

Eis, caríssimos! Aprendamos do Senhor, vigiemos e acolhamos Sua Palavra. Se formos fieis e perseverarmos até o fim, escutaremos cheios de esperança Sua promessa, que encerra o Evangelho de hoje: “… então, os justos brilharão como o sol no Reino do seu Pai!” Que assim seja! Amém!

Por Dom Henrique Soares da Costa, bispo de Palmares / PE.

As lições da águia

Alejandro Bullón, no livro “A Sós Com Jesus”, faz uma bela reflexão, mais ou menos assim:

Disse o profeta Isaías que “aqueles que contam com o Senhor renovam suas forças; dá-lhes asas de águia. Correm sem se cansar, vão para frente sem se fatigar” (Is 40,31).

Por que será que o Profeta se espelha na águia para falar da força dos homens e mulheres que confiam em Deus?

É porque a águia é uma ave especial desde a sua origem. Um frango está pronto para ser vendido com três meses. Águias não, elas levam, como no caso da Águia Real, até um ano para voarem sozinhas.

Os autênticos cristãos são como águias: podem levar tempo para amadurecer, aprofundar nos mistérios de Deus, e depois viver toda a vida no alto, segundo essas verdades colhidas sob o sol da penitência, da meditação e da oração.

Os pássaros de modo geral voam em bandos. Águias não, sempre estão sozinhas, no máximo em duas. Ficam lá no alto, olhando o azul infinito. E tem olhos inigualáveis; conseguem enxergar detalhes a longa distância. E quando querem tomar uma presa, dão um voo rasante inigualável.

Também para o cristão o poder vem do alto de onde ele enxerga bem todas as coisas com os olhos do Espírito Santo; e muitas vezes tem que ficar sozinho, rejeitado, por causa de seus princípios. Muitas vezes é considerado “careta”, fora de moda, obscurantista, isolado. Geralmente, as pessoas acham que o cristão anda na contramão da vida. É porque, como São João avisou, “o mundo jaz no maligno”. Os que voam alto não podem ser compreendidos pelos que vivem em baixo, porque não têm a visão do alto, de todas as coisas; só enxergam o rasteiro. E quando alguém não é compreendido é temido, então, criticado e condenado. É normal.

Você sabe aonde vão as águias quando a tormenta vem? Elas não se escondem. Ao contrário, abrem suas enormes e robustas asas, que podem voar a uma velocidade de até 90 km/h, e enfrentam a tormenta. Elas sabem que as nuvens escuras, a tempestade e os choques elétricos, podem ter uma extensão de 30 a 50 m, mas lá em cima brilha o sol.

Nessa luta terrível contra as tempestades elas perdem algumas penas, podem se ferir, mas não temem e seguem em frente.

Depois, enquanto todo mundo fica às escuras embaixo, elas voam vitoriosas e em paz, lá em cima, sob um sol a brilhar.

As águias também morrem, mas ninguém acha um cadáver de águia. Sabe por quê? Porque quando elas sentem que chegou a hora de partir, procuram o pico mais alto, tiram as últimas forças de seu cansado corpo e voam aos picos inatingíveis e aí esperam resignadamente o momento final. Até para morrer elas são extraordinárias.

Todos os dias temos desafios a enfrentar, mas lembre-se: descanse no Senhor, suba às alturas com Ele, e não tenha medo da tempestade, do isolamento e da crítica. Passe tempo com Ele e depois parta para a luta, sabendo que além daquela tormenta brilha o sol.

FONTE: Site da Editora Cléofas.

Testemunhas de uma Presença de amor…, por Dom Henrique

A Presença eucarística do Cristo Senhor! O modo de presença por excelência, a presença pessoal-sacramental de Cristo nas espécies da Eucaristia!
Naquele Pão que não mais é pão,
naquele Vinho que não mais é vinho,
é o próprio Senhor morto e ressuscitado, o Cordeiro de pé como que imolado, descrito no Apocalipse, que Se faz presente na Sua Igreja e para a Sua Igreja, em meio a nós, para a Vida do mundo.
Na Eucaristia, de modo particularíssimo – tão particular, que dizemos “presença real” – Cristo cumpre continuamente Sua última promessa: “Eu estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos!”

Hoje, a Igreja celebra o mistério da Presença indo às ruas do mundo inteiro em procissão.
Quando surgiu a Solenidade de Corpus Christi, no longínquo século XIII, era fácil e óbvio, era apoteótico e triunfal ir às ruas com o Cristo-Eucaristia. O mundo de então era cristão e a presença do Senhor era palpável, perceptível, num mundo teocêntrico, impregnado do divino, empapado do sagrado. Naqueles tempos quase metade dos dias do ano era de feriados religiosos. E ninguém estranhava, porque era viva a consciência de que o tempo é de Deus e, por isso mesmo, é também tempo do homem, tempo não só para o trabalho e a produção, para o lucro e o enriquecimento, mas também para o louvor, o descanso, a convivência com os familiares e irmãos de fé, e o saudável ócio que faz com que não deixemos de ser humanos no momento do “neg-ócio”…

Mas, os tempos mudaram! E como!
Hoje, mais que em qualquer outro tempo, é necessário que a Igreja vá às ruas com o Pão eucarístico.
São ruas de um mundo sem Deus, mundo cansado, feio, sem grandes perspectivas, mundo de ruas sem as marcas do Eterno; ruas de um mundo no qual Deus é sentido como Ausência, porque O estamos exilando do nosso coração, de nossas famílias, de nossos negócios, de nossas relações, de nossas leis, de nossa Pátria, de nossa sociedade, de nossos esquemas de moralidade…

Sair hoje me procissão, de modo solene e triunfal, com uma ínfima partícula de pão não fermentado, fininho e delicado, pode parecer algo sem sentido para o mundo, algo tolo, inútil, indigno da razão ilustrada e imanentista dos tempos hodiernos.
E, no entanto, é precisamente desse testemunho que o mundo mais precisa hoje: de que os cristãos digam que Deus não está ausente, mas Ele mesmo é Presença, e presença encarnada na matéria desse mundo, na carne da nossa vida.
Ele é Presença sim!
E não no que é grande, vistoso, midiático, mas no que é pequeno e humilde, banal e ínfimo, como um pedacinho de pão e um pouquinho de vinho.
Eis: a Eucaristia não somente testemunha a presença do Senhor, mas também o modo como Ele quer ser reconhecido na Sua presença: no que é simples, corriqueiro, pequeno… como os sofrimentos, o pranto, os pequenos momentos de vida, da família, do trabalho, do amor.
Ele quer ser reconhecido como presença no que sofre, no que precisa de nós, nos que para o mundo não contam nada e não valem nada…

Hoje, Corpus Christi, ou como se diz também no Brasil, Corpo de Deus, lá vai a Igreja, louca de alegria, pasmo e fé, proclamando essa Presença, que faz o mundo ter sentido, o homem não se sentir sozinho e a vida encontrar um rumo, o rumo da eternidade. “E quando amanhecer o Dia eterno, a eterna visão, ressurgiremos por crer nesta Vida escondida no Pão!”

Dom Henrique Soares: “O mistério de uma Presença”

Estamos para celebrar Corpus Christi. Eis alguns pensamentos para nos preparar para a Solenidade do Corpo do Senhor.
A presença do Cristo Jesus no sacramento da Eucaristia foi querida por Ele próprio para permanecer junto do homem e oferecer-Se como seu alimento, seu companheiro, seu sustento e para manter-se no seio da Igreja.
No mistério admirável da Presença eucarística, cumpre-se a promessa do Senhor: “Eu estarei convosco todos os dias até o fim dos tempos!” A resposta do homem a tão grande dom é a fé na presença real e substancial do Senhor nas espécies, isto é, nas aparências do pão e do vinho eucarísticos.

De todas as dimensões da Eucaristia, aquela que é central e põe à prova a nossa fé é o mistério da presença real do Senhor nas espécies consagradas. Com toda a Tradição da Igreja, acreditamos que, sob as humildes aparências do pão e do vinho, está realmente presente Jesus. Essa presença chama-se “real”, não por exclusão, como se as outras formas de presença não fossem reais, mas por antonomásia, por excelência, já que por ela Se torna substancialmente presente Cristo completo na realidade do Seu Corpo e do Seu Sangue, isto é, da Sua humanidade imolada e glorificada, unida substancialmente à Segunda Pessoa da Trindade Santa: sim: Deus está ali, nas espécies; elas são Corpo e Sangue de Deus, do Filho eterno feito homem! Mistério!
Por isso, a fé pede-nos para estar diante da Eucaristia com a consciência de estar na presença do próprio Cristo presente de modo tão real quanto está no Céu. Esta presença do Senhor possui um significado que ultrapassa, e muito, o de puro simbolismo.
A Eucaristia é mistério de presença, mediante o qual se realiza de modo excelso e surpreendente a promessa que Jesus fez de ficar conosco. É necessário, portanto, evitar aquelas afirmações que se fazem contrárias à transubstanciação e à presença real, entendendo-as num sentido apenas simbólico, bem como comportamentos e atitudes concretas que revelam implicitamente essa convicção errônea.
Por vezes tem-se a impressão que, na Liturgia, alguns comportam-se como animadores, mais preocupados em chamar a atenção do público para a sua pessoa, do que ser servos de Cristo, chamados a levar os fieis à união com o Senhor. Tudo isto obviamente tem reflexos negativos no povo, que corre assim o risco de ficar confuso na compreensão e na fé da presença real de Cristo no Sacramento.

Na Tradição da Igreja criou-se uma verdadeira e própria linguagem dos gestos litúrgicos, orientada a exprimir retamente a fé na presença real de Cristo na Eucaristia, tais como a cuidadosa purificação dos vasos sagrados depois da comunhão ou quando caem no chão as espécies eucarísticas, a genuflexão diante do sacrário, o uso da bandeja na distribuição da comunhão, a substituição regular das hóstias conservadas no sacrário, a colocação da chave do sacrário em lugar seguro, a postura respeitosa e o recolhimento do celebrante em consonância com o caráter transcendente e divino do Sacramento. Omitir ou descurar tais sinais sagrados, que contêm um significado mais profundo e vasto que o seu aspecto exterior, esvaziaria o sentido sagrado da Eucaristia e a consciência profunda que a Igreja sempre teve da presença real do Cristo no Sacramento do altar.

Em todos os sacramentos, Jesus Cristo atua através de sinais sensíveis que, sem mudarem de natureza, adquirem uma capacidade transitória de santificação. Na Eucaristia, contudo, Ele está presente com o Seu Corpo e Sangue, alma e divindade, dando ao homem toda a Sua Pessoa e a Sua Vida.
No Antigo Testamento, o Senhor Deus, através dos Seus enviados, indicava a Sua presença na Nuvem (shekhinà), no Tabernáculo, no Templo. Com o Novo Testamento, na plenitude do tempo, Ele, o Santo, veio habitar entre os homens no Verbo feito carne (cf. Jo 1,14), tornando-Se realmente Emanuel (cf. Mt 1,23); falou por meio do Filho, Seu herdeiro (cf. Hb 1,1-2). São Paulo, para fazer compreender o que acontece na comunhão da Eucaristia, afirma: “Aquele que se une ao Senhor constitui com Ele um só espírito” (1Cor 6,17), numa nova vida que promana do Espírito Santo. Diz São João Crisóstomo: “Quando estás para abeirar-te da sagrada Mesa, acredita que nela está presente o Senhor de todos”. Por isso, a adoração é inseparável da Comunhão.

Desde as origens, a Igreja repete solenemente os gestos do Senhor, decompondo-os para meditá-los um a um, como a procurar aprofundar, num esforço constante e renovado, o significado dos mesmos: a apresentação dos Dons, a consagração, a fração e a distribuição da Comunhão. Por isso, as palavras ‘Tomai e comei’ não incluem o gesto simultâneo da fração da hóstia; nessa lógica, deveria seguir de imediato a comunhão… Ao invés, nesse momento altamente místico, a Liturgia convida o celebrante a inclinar-se e a proferir as palavras com voz clara, mas não alta, para se favorecer a contemplação, a voz como que sopra sobre as espécies eucarísticas o sopro do Espírito suplicado para santificar as oferendas, como faz o Bispo na Quinta-Feira Santa, quando sopra sobre o crisma. O celebrante “nas suas atitudes como na forma de proferir as palavras divinas, procurará sugerir aos fieis a presença viva de Cristo”. Nesse momento, de fato, realiza-se o Sacrifício sacramental.

Nos primeiros séculos, antes da consagração dirigia-se ao Pai uma invocação, acompanhada do gesto das mãos estendidas (epíclesi), suplicando o envio do Espírito Santo para santificar e transformar o pão e o vinho no Corpo e Sangue do Senhor. O fundamento dessa oração encontra-se nas palavras que o Senhor proferiu após a instituição do mistério: “Quando vier o Paráclito. Ele dará testemunho de Mim e vos recordará tudo o que Eu vos disse. Ele Me glorificará” (Jo 15,26; 14,26; 16,14).
Os grandes doutores cristãos da antiguidade acharam por bem unir a invocação do Espírito às palavras da instituição, para que o sinal sacramental se realizasse. As palavras do Senhor são, de fato, Espírito e vida (cf. Jo 6,63). Cristo atua juntamente com o Espírito Santo, mas mantém-Se o único que consagra a Eucaristia e concede o mesmo Espírito: é Cristo, o ungido, Quem consagra, mas o faz na potência do Espírito enviado de junto do Pai.
Como observa Santo Ambrósio: “Que dizer da bênção dada pelo próprio Deus, em que operam as mesmas palavras do Senhor e Salvador? Sendo este Sacramento que recebes realizado com a palavra de Cristo não poderá a palavra de Cristo, que pôde criar do nada o que não existia, mudar as coisas que são naquilo que não eram? Certamente não é menos difícil dar às coisas uma existência do que mudá-las noutras. É o mesmo Senhor Jesus que diz: ‘Isto é o Meu Corpo’. Antes da bênção das celestiais palavras, a palavra designava um determinado elemento; depois da consagração, passa a designar o Corpo e o Sangue de Cristo. É Ele mesmo que o chama Seu Sangue. Antes da consagração, tem um outro nome; depois da consagração, chama-se Sangue. E tu dizes: ‘Amém’, ou seja, ‘Assim é’”.

Dos documentos antigos da Igreja aprendemos que a Comunhão não se toma como um direito adquirido, dela não se apropria alguém como de uma posse, mas se recebe humildemente, como um mendigo, como símbolo do que ela significa, ou seja, Dom de total gratuidade divina, recebido em atitude de adoração. Recomenda-se, pois, uma verdadeira devoção ao aproximar-se da Comunhão. São Francisco de Assis ardia “de amor em todas as fibras do seu ser pelo sacramento do Corpo do Senhor, cheio de incomensurável maravilha perante tão benévola bondade e generosíssima caridade. Comungava com tanta devoção a ponto de tornar devotos também os outros”. E São Nicolau Cabasilas, místico ortodoxo do século XIV, convida a ter presente que, “ao comungar uma Carne e um Sangue humano, recebemos na Alma Deus: Corpo de Deus, não menos que de homem; Sangue e Alma de Deus, mente e vontade de Deus, não menos que de homem”.
Que tenhamos em nós esta certeza: A realidade do Corpo de Cristo é a Sua Pessoa e a Sua vida, mistério e verdade salvífica, que se devem abraçar com a fé e a razão!

Texto publicado na sua página, na rede social Facebook. Dom Henrique, bispo de Palmares, escreve com frequência.

Meditação para a Solenidade do Corpo de Deus por Dom Henrique

Texto publicado na rede social Facebook em 14/06/2017. Dom Henrique Soares da Costa é bispo de Palmares/PE.

“Hoje a Igreja te convida: ao Pão vivo que dá Vida vem com ela celebrar!” – Caríssimos irmãos, é, precisamente, este o sentido da hodierna solenidade: celebrar, proclamar, professar, expressar a nossa fé inabalável na presença real do Cristo morto e ressuscitado nas espécies, isto é, nas aparências, eucarísticas!

Eis a nossa fé: cremos com todo o nosso coração e com toda a nossa mente que, nas espécies eucarísticas oferecidas como Sacrifico de Cristo – sacrifico único, perfeito, eterno – o Senhor Jesus está realmente presente no Seu Corpo e no Seu Sangue, alma e divindade, tão perfeito e real como está no Céu.
Ante o pão e o vinho consagrados, podemos cantar, como o povo cristão canta: “Deus está aqui! Ó vinde, adoradores, adoremos a Cristo redentor!” Eis: nas espécies consagradas já não há mais pão, já não há mais vinho: há somente o Corpo e o Sangue do Senhor morto e ressuscitado, todo no que era vinho, todo no que era pão. É Ele: adorável, amável, Vida para nossa vida!

Caríssimos, trata-se de um Mistério de fé que somente pode ser compreendido de joelhos! Trata-se de uma realidade concreta que somente pode ser apreendida se abrirmos o coração ao desígnio amoroso e salvífico de Deus!
Não há como perceber, não há como provar, não há como demonstrar cientificamente! Não podemos apreendê-lo, capturá-lo com nossa razão e nossos sentidos:
o paladar falha, pois saboreia pão e vinho;
o tato falha, pois pega pão e vinho;
a visão falha, pois enxerga pão e vinho;
o olfato falha, pois cheira pão e vinho…
Somente pelo ouvido, que crê o que escuta, podemos perceber o Mistério; somente a audição não falha: “Isto é o Meu Corpo; isto é o Meu Sangue! Eu sou o Pão vivo descido do Céu. O pão que Eu darei é a Minha Carne dada para a Vida do mundo!” Eis, que mistério tão grande: o pão que Cristo dá é a carne dada, a carne sacrificada, entregue na cruz, para a vida do mundo! Que mistério! Que amor!

Os judeus entenderam, os judeus contestaram, os judeus se escandalizaram, muitos judeus O abandonaram! Infelizmente, há cristãos que não entendem, que contestam, que se escandalizam e não comem nem bebem a Vida que dura eternamente!

Mas, Jesus insiste: “Em verdade, em verdade os digo: se não comerdes a Carne do Filho do Homem e não beberdes o Seu Sangue, não tereis a Vida em vós! Quem come a Minha Carne e bebe o Meu Sangue tem a Vida eterna e Eu o ressuscitarei!”
– São palavras impressionantes, quase que inacreditáveis: o Corpo e Sangue de Jesus devem ser comidos como fonte de Vida, pois são alimentos vivos e vivificantes! Não de qualquer vida, mas da Vida eterna, Vida plena, Vida de Deus!
Esta vida é o próprio Espírito Santo, que ressuscitou Jesus e que impregna Seu Corpo e Sangue nas espécies eucarísticas! Por isso, na comunhão, recebemos, comemos a Vida já agora e plantamos esta Vida para a ressurreição final! “Porque a Minha Carne é verdadeira comida e o Meu Sangue, verdadeira bebida. Quem come a Minha Carne e bebe o Meu Sangue permanece em Mim e Eu nele!”
– O que mais Jesus poderia dizer para deixar mais claro e patente que Sua presença na Eucaristia é realmente real? É “verdadeiramente comida, é verdadeiramente bebida!” “Como o Pai que Me enviou vive – é o Deus vivente e pleno de Vida -, e Eu vivo pelo Pai, o que come de Mim viverá por mim!” – Que dom, que graça: viver por Jesus, viver com a mesmíssima Vida que Jesus ressuscitado recebeu do Pai: viver daquela Vida escondida no pão e no vinho! Eis o dom que o Senhor faz de Si mesmo! E Jesus conclui, no Evangelho de hoje: Este é o Pão que desceu do Céu, não é um simples pão deste mundo! Não é como aquele que os vossos pais comeram. Eles morreram!
O maná não dava a vida divina, o maná não era transfigurado pelo Espírito Santo, Senhor que dá a Vida! Aquele que come este Pão viverá eternamente, isto é, viverá divinamente, viverá a Vida do Eterno!”

Caríssimos! Na travessia do deserto da vida, o Senhor nos conduz entre humilhações e provas, que nos revelam quem somos, o que temos no coração… O Senhor não nos infantiliza, não nos livra dos embates da existência, mas permanece conosco: “Não te esqueças do Senhor teu Deus: Ele foi teu guia no vasto e terrível deserto. Foi Ele que fez jorrar água para ti da pedra duríssima e te alimentou no deserto com o maná que nem tu nem teus pais conhecíeis, para te mostrar que nem só de pão vive o homem, mas o homem vive de toda Palavra que sai da boca de Deus!”
Nos nossos desertos, nesse deserto da longa história humana, que a Igreja vai atravessando, sobretudo nestes tempos tão dolorosamente confusos, tão tristemente incertos, nutramo-nos desse Pão e bebamos da bebida que sai do Cristo, nossa Rocha! Este Alimento verdadeiro, de Vida verdadeira, ei-lo no altar: “O cálice que abençoamos é a nossa comunhão com o Sangue de Cristo. O pão que partimos é a nossa comunhão com o Corpo de Cristo!” Comunguemos, pois, com Ele: comunguemos no Sacramento, no afeto, nas escolhas, nas situações da vida, nas certezas, na morte e na Vida eterna!

“Bom Pastor, Pão de verdade,/ piedade Jesus, piedade, / conservai-nos na unidade, / extingui nossa orfandade,/ transportai-nos para o Pai.
Aos mortais dando comida,/ dais também o Pão da Vida;/ que a família assim nutrida/ seja um Dia reunida/ aos convivas lá do Céu”. Amém.

Obs: “Corpo de Deus” – assim esta Solenidade era chamada no Junqueiro da minha infância! Título provocativo, ousado, louco, de santa loucura, de quem crê efetivamente que, em Jesus nosso Senhor, Deus mesmo, pessoalmente, Ele e não outro, fez-Se matéria, fez-Se carne, fez-Se homem e, assim, deu-Se a nós como Vida de nossa vida!

Domingo da Santíssima Trindade

Após termos celebrado o Natal do Senhor, quando contemplamos o amor do Pai, que preparou na Antiga Aliança e, na plenitude dos tempos, enviou Seu Filho ao mundo na potência do Espírito Santo, Espírito que tornou fecundo o seio virginal de Maria Mãe de Deus;
após a celebração do santo tempo pascal, quando fizemos memorial da Paixão, Morte, Sepultura e Ressurreição do Senhor, que por nós ofereceu-Se ao Pai num Espírito eterno;
após concluirmos a Santa Páscoa com a celebração do dom do Espírito em Pentecostes,
neste Domingo, a Igreja nos faz proclamar a glória da Trindade Santa, o Deus uno e trino que é amor e deu-Se a nós e nos salvou por amor!
Na Liturgia, no correr do ano, é o Mistério e a história do nosso Deus conosco que celebramos, contemplamos e experimentamos na nossa vida! Todo o mistério de salvação consiste nisto: o Pai que, pelo Filho, no Espírito, veio ao nosso encontro, nos perdoou, nos encheu de Sua Vida divina e Se nos dá continuamente nos sacramentos da Sua Igreja.

Mas, o que nos revela essa história de Deus, do Pai que nos enviou o Filho na força do Espírito Santo? Revela-nos que o Deus uno e único, o Santo Deus de Israel é, ao mesmo tempo e de modo misterioso e impenetrável, uma eterna e perfeita Comunidade de amor!
Ele é um só! Perfeitamente Uno, inifinitamente Um: Deus é um só, o Senhor é Único! Ele é indivisível, nada ou ninguém pode ser colocado ao lado Dele: um só é o nosso Deus no céu e na terra!
Ao mesmo tempo, Ele é Comunidade de Amor! Ele é eternamente Trino, perfeitamente Trino, totalmente Trino!
Absolutamente Um e absolutamente comunidade! Eis o Mistério que nem no Céu poderemos esquadrinhar!

Não é a toa que, na primeira leitura de hoje o Senhor Se revela Se escondendo na noite e na nuvem: “Ainda era noite… e o Senhor desceu na nuvem e permaneceu com Moisés”.
Eis! Nosso Deus Se faz próximo, desce até nós por amor, mas não podemos compreendê-Lo, abarca-Lo, domá-Lo, domesticá-Lo!
Ele Se revela como amor puro e generoso: Seu Nome é Amor e Misericórdia: “Senhor, Senhor! Deus misericordiosos e clemente, paciente, rico em bondade e fiel…”, mas para experimentá-Lo, para caminhar com Ele, e preciso a atitude de Moisés: “ele curvou-se até o chão, prostrado por terra… E disse: ‘Senhor, acolhe-nos como propriedade Tua’”.
Nosso Deus nos ama, nosso Deus faz-Se próximo, mas jamais será nosso parceiro, nosso amiguinho, nosso coleguinha, que pode por nós ser subornado e com o qual podemos negociar! Não! Ele é Deus! O Seu Nome é Eternidade, o Seu Nome é Infinitude, o Seu Nome é Amor! Ele é Deus!

E, no entanto, Ele quis caminhar conosco, veio a nós e revelou-Se no Mistério da Sua intimidade. Que coisa: um Deus que nos procura e quer nos unir a Ele!
Como dizia Santa Teresa: “Juntais aquela que não é com a Plenitude acabada: sem acabar, acabais; sem ter que amar, amais, e engrandeceis nosso nada!”
Ele, gratuitamente, deu-Se a nós, para nos salvar, fazendo-nos viver com Ele, participando da Sua Vida: por isso o Pai entregou ao mundo o Seu Filho, Seu Amado: para viver conosco, sonhar conosco, sofrer e morrer conosco e, assim, dá-nos sua vitória e Seu Céu: “Deus, o Pai, amou tanto o mundo, que entregou o Seu Filho unigênito, para que não morra quem Nele crer, mas tenha a Vida eterna. Pois Deus não enviou o Seu Filho para condenar o mundo, mas que o mundo seja salvo por Ele”.
No Filho único, Jesus, o Pai mostrou o Seu Rosto, o Pai mostrou Sua bondade, o Pai mostrou o Seu amor. Jesus mesmo disse: “Quem Me vê, vê o Pai. Eu e o Pai somos uma só coisa! (Jo 14,9s).
Mas, não bastava para Deus viver no nosso meio, entre nós! Ele quis viver em nós, dentro de nós, sendo mais íntimo de nós que nós mesmos! Por isso, o Filho Jesus, Deus entre nós, Deus conosco, após Sua Morte e Ressurreição, deu-nos o Seu Espírito Santo, que Ele mesmo recebera do Pai: “Porque sois filhos, Deus, o Pai, enviou aos vossos corações o Espírito do Seu Filho, que clama: Abbá, Pai! (Gl 4,6).
Deus foi grande para conosco!
Foi bom demais! Foi infinitamente generoso, foi magnânimo!
Não só nos revelou coisas, mas revelou-Se a Si mesmo! Eis o Mistério totalmente impenetrável até mesmo aos anjos do Céu: Ele, no mais íntimo de Si, sem deixar de ser Um só, é Pai, eterno Amante, é Filho, eterno Amado, é Espírito, eterno Amor!
E não somente revelou-Se a nós como é, mas deu-Se a nós: o Pai, pelo Filho, no Espírito deu-nos a própria Vida divina!
Deus veio a nós, quis fazer história na nossa história, quis viver a nossa vida para nos elevar à Vida Dele, Vida feliz, Vida plena, Vida eterna!

É nesta fé que vivemos, é na Vida desse Deus triúno que fomos batizados. Aquele amor eterno entre o Pai, o Filho e o Espírito, é o amor que nos invade e que devemos viver entre nós!
A Trindade não é uma teoria para os doutores em teologia. Ela é uma realidade concreta que deve invadir a nossa vida e a vida da Igreja: “Amemo-nos uns aos outros, pois o amor é de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é Amor!” (1Jo 4,7-8).
Porque somos cristãos, nascidos nas águas batismais, em Nome da Trindade, nossa vida deve ser vida e comunhão de amor: “a graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós!” Estas palavras de São Paulo revela o que nós somos, o que devemos ser, o que devemos testemunhar diante do mundo: uma comunidade que nasceu do amor, vive no ninho do Deus de amor e caminha para o Deus de amor. Por isso o Apóstolo recomenda-nos: “Alegrai-vos, cultivai a concórdia, vivei em paz, saudai-vos com o ósculo santo!”

Caríssimos, crer e experimentar que Deus é uno e trino é viver no amor que nos faz uma só coisa no Filho Jesus e nos conserva respeitosos das diferenças e diversidades entre nós.
Uma comunidade cristã que não seja unida e respeitosa das diferenças de dons, carismas, ministérios e sensibilidades, não é uma comunidade realmente nascida da Trindade, que vive o mistério da Trindade e caminha para a Trindade.

Nunca esqueçamos: vimos do Pai pelo Filho no Espírito; caminhamos, peregrinos, para o Pai, pelo Filho no Espírito.
A Trindade é nosso berço, nosso ninho e nosso destino. Contemplá-La e adorá-La é viver o amor. Como dizia Santo Agostinho: viste o amor, viste a Trindade!
“Bendito seja Deus Pai, bendito seja o Filho unigênito, bendito seja o Espírito Santo! Deus foi misericordioso para conosco!” A Ele, a glória pelos séculos. Amém.

O autor do texto é Dom Henrique Soares, bispo de Palmares. Texto extraído da rede social Facebook.

 

 

 

 

 

Sobre o livro de Tobias, por Dom Henrique

Textos publicados na rede social Facebook, em datas diferentes.

Na leitura da Missa do dia seis de junho (Tb 2,9-14), irada com o esposo, a mulher de Tobias, cego e pobre, passa-lhe no rosto a inutilidade de suas boas obras e de sua devoção para com Deus: “Onde estão as tuas esmolas? Onde estão as tuas obras de justiça?”

Esta atitude desprovida de sabedoria e piedade não está tão longe de nós como se poderia pensar…

Carregamos no íntimo do coração uma percepção de que nossa piedade e amizade para com o Senhor nos protegem de todo o mal e nos colocam em segurança, quase que ao resguardo das inseguranças e incertezas da vida. Afinal, o Senhor não é bom? Não é amor fiel para com Seus amigos?

E, então, quando nos sobrevêm os desastres, as situações de dor e escuridão, quando nos sentimos como pobres joguetes das vicissitudes absurdas da existência, há, sim, uma tentação de perguntar por Deus e de nos perguntar para que serviu nossa amizade com Ele, nossa piedade, nossa entrega a Ele, nossa confiança no Seu amor… Podemos mesmo chegar ao extremo de afirmar: “Deus é o grande Ausente! Ele não existe!”

Nunca estaremos totalmente livres destas perguntas. Este sentimento, à beira do abismo da descrença, nunca deixará totalmente o coração do crente…

A mulher de Tobias é insensata! Nas Escrituras Santas, a amizade com Deus não é uma relação de troca, não é uma busca de benefícios.
O verdadeiro crente afirma a existência atual, atuante, presente de Deus, que tudo envolve e tudo penetra com Sua amorosa providência; mas também tem consciência de que Este Deus bendito nos ultrapassa no Seu modo de ser presente e de agir… Deus não pode ser medido, esquadrinhado por nossa lógica e nossas medidas!

Seu amor providente para com todos, para comigo, já se revelou suficientemente na Cruz e na Ressurreição de Jesus, o Filho amado. O verdadeiro crente transcende o pobre limite de uma lógica à medida humana e joga-se na certeza de que Deus É e Seu Nome é Amor: Fidelidade, Providência, Presença!

Há uma frase do Livro de Jó que exprime isto quase que de modo absurdo, mas saborosamente verdadeiro, deliciosamente crente, fiel ao sentido mais profundo do crente ao seu Senhor: “Ainda que Ele me mate, eu esperarei Nele…” (13,15) Cristo, nosso Senhor, viveu isto com intensidade máxima na Cruz; e experimentou na Sua carne o quanto para além de toda escuridão, toda dor e toda morte, a fidelidade do Senhor Deus é para sempre e se torna sempre ressurreição.

Assim, que os incrédulos zombem, que os bitolados na bitola estrita da humana razão ridicularizem… Nós, coloquemos no Senhor a nossa esperança e Nele somente nos apoiemos:
“Ainda que que a figueira não dê fruto
e não haja fruto na vinha,
ainda que decepcione o fruto da oliveira
e os campos não deem de comer,
ainda que as ovelhas desapareçam do aprisco
e não haja gado nos estábulos,
eu me alegrarei no Senhor,
exultarei no Deus da minha salvação!” (Hab 317s).

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No capítulo 3 de Tobias, que escutamos na quarta-feira passada, Tobit, o velho pai de Tobias, e Sara, jovem judia piedosa, choravam diante de Deus a sua miséria: Tobit chorava pela cegueira, que o levara à pobreza; Sara chorava pela vergonha de ser viúva pela sétima vez; viúva e sem filhos…

Tratam-se aqui de duas situações irremediáveis. Quem está livre de experimentar isto? A vida não é segura, não é um filme com final feliz garantido. Na existência, muitas vezes não conseguimos compreender o que nos acontece e o motivo e o sentido desses acontecimentos cruéis… É incerta e fugir a vida do homem sobre a terra!

E, no entanto, seja Tobit quanto Sara não se fecham na sua angústia, mas se abrem para o Senhor Deus em oração.
Ambos não suportam mais a vida, ambos pedem a morte, mas pedem-na a Deus! Não hesitam em derramar o coração diante do Senhor, não temem apresentar-Lhe a sua causa.

É uma lição preciosa para nós: seja na vida que na morte, seja na alegria que na tristeza, seja na luz que na treva, nosso caminho está diante de Deus, nossa vida está nas mãos do Onipotente.

Aprendamos com esses corantes, esses verdadeiros crentes, a nunca expulsar o Senhor do todo da nossa existência: vivamos sempre diante Dele, coloquemos sempre na Sua presença todos os aspectos e situações do nosso ser e do nosso viver. Atenção para que não haja compartimentos da nossa vida que desejemos esconder Daquele que sonda todas as coisas e para Quem a noite é clara como o dia! Nossa fé no Senhor e nossa relação com Ele devem iluminar toda a nossa existência!