Devocionário

                                 Com a proximidade dos festejos de dois dos santos de minha devoção, irei publicar como posts os conteúdos que incluí na página Devocionários. Dessa forma, acredito que ficarão acessíveis para os visitantes do blog. O primeiro que ganhará postagem será São Francisco. Aguarde!

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” #SantaEdwiges : o conúbio da vida religiosa com a vocação foi a matriz de seu feliz matrimônio”

Bertoldo, marquês de Meran e conde do Tiro, duque da Caríntia e da Ístria, havia se casado com Inês, filha do conde de Rottech. O feliz casal teve vários filhos, dentre os quais Edwiges, nascida em 1174 em Andechs, na Baviera (Alemanha).

Aos seis anos Edwiges foi enviada ao mosteiro de Kicing, para ser educada pelas religiosas, e com doze anos casou-se com Henrique, duque da Silésia (a maior parte dessa região pertence à atual Polônia), e mais tarde também duque da antigaSanta Edwirges.jpgPolônia, gerando seis filhos (dos quais dois faleceram com pequena idade).

Tendo recebido a educação ministrada por religiosas, Edwiges era dotada de um grande autocontrole, que manifestou desde a infância e que a acompanhou na vida adulta. Procurou fazer do lar uma igreja doméstica, e seu esposo para isso muito colaborou, podendo ambos serem considerados um casal exemplar. Mas infelizmente o exemplo dos pais não frutificou nos filhos, que lhes deram motivos para amargos sofrimentos.

A temperança, virtude sempre perseguida 

Prezava ela, entre as virtudes, a temperança, o que soube muito bem aplicar à castidade matrimonial segundo os costumes da época. Após vinte anos de vida conjugal Edwiges e seu marido compareceram perante o bispo para prometer continência até o fim de suas vidas, o que cumpriram com fidelidade, buscando forças na oração, no jejum e na abstinência (Henrique terminou sua vida trinta anos depois).

Ainda antes de enviuvar Edwiges se havia transferido para o mosteiro de Trebnitz (fundado por seu marido), acompanhada de umas poucas senhoras que a serviam e algumas amigas. Não escolheu para si cômodos luxuosos, optando por morar no fundo do mosteiro: quarto pobre, mobílias pobres; a rica duquesa fez-se pobre entre as pobres religiosas.

Especial consideração pelos membros das famílias religiosas

Diversos mosteiros foram fundados por Edwiges, que atraiu à Silésia religiosos de várias ordens e congregações, inclusive franciscanos e cistercienses, com o que dotou a região de novas formas de espiritualidade.

Edwiges dizia-se uma grande pecadora, mas considerava as religiosas como santas, e assim as coisas que elas usavam eram, para a duquesa, relíquias. A água servida com a qual as religiosas haviam lavado os pés era usada por Edwiges para lavar os olhos, e até toda a cabeça, sendo por vezes ingerida com veneração. Os assentos e genuflexórios usados pelas religiosas eram reverentemente osculados, bem como as toalhas.

Precedência para os pobres

Recusava-se ela a tomar sua refeição antes de dar de comer aos pobres, e o fazia de joelhos. Por vezes, antes de tomar água, passava o copo a um pobre para que a sorvesse antes. Em várias ocasiões propiciou copiosas refeições para os pobres, aos quais pessoalmente servia os alimentos (mas ela, tomando os alimentos somente depois de tê-los servido com precedência, contentava-se com o que havia de mais simples). Alguns filhos de nobres fizeram o sutil comentário: os mendigos comiam melhor nas refeições servidas pela duquesa do que eles nas mesas dos príncipes…

Poderia ela, ao ter enviuvado, fazer a profissão religiosa e emitindo os votos de pobreza, castidade e obediência. Mas ao fazer o voto de pobreza extinguiria assim a possibilidade de ajudar os pobres com os bens que tinha, e, portanto, manteve-se pobre de espírito, vivendo a pobreza evangélica mesmo continuando a possuir grande fortuna.

“Aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração”

Edwiges renunciou a tudo. Sobre a cabeça, não havia coroa nem véus luxuosos; no pescoço ou peito, nada de ricos colares; nos dedos, nenhum luxuoso anel. Essa exterioridade era reflexo da humildade interior. Desde a promessa da continência conjugal Edwiges renunciou aos ornatos do mundo: não mais vestiu trajes coloridos, adotando o cinzento como cor, e só nas grandes solenidades mostrava-se melhor vestida do que o habitual, em reverência a Deus.

“Estive preso e Me visitastes”

Os encarcerados e condenados eram motivo de especial atenção de Edwiges. Durante os vários anos em que foi construído o mosteiro de Trebnitz nenhum condenado à morte foi executado: a duquesa conseguiu que eles fossem trabalhar nas obras, permitindo-lhes emendar-se de suas faltas e chegar à conversão. E durante os longos anos em que viveu neste mundo dirigiu ela o olhar para os que se encontravam privados da liberdade, visitando-os e fornecendo-lhes roupas e alimentos, sendo vários deles adversários de seu marido.

Em diversas ocasiões intercedeu ela junto a Henrique pedindo que seus desafetos encarcerados voltassem às suas boas graças, conseguindo assim para eles a alegria da liberdade (e para Henrique a possibilidade de, junto com ela, fazer o bem).

Certa ocasião um clérigo cometera um crime de sacrilégio, sendo sentenciado pelo juiz à pena capital. A duquesa comoveu-se profundamente pelo que ocorria com o infeliz, mas ao mesmo tempo olhando para uma santa instituição, a Igreja Católica, na qual ele atuava: um eleito de Deus condenado a uma morte infame. Apesar do crime, Edwiges considerava o estado clerical digno de grande veneração: pediu, suplicou e orou pelo condenado, conseguindo finalmente livrá-lo da sentença fatal, e depois empenhou-se na conversão daquele cuja vida havia salvo.

Protetora das viúvas, órfãos, pobres, peregrinos e endividados

Para as viúvas e órfãos Edwiges era uma mãe, advogada e consoladora. Aos peregrinos que se dirigiam aos Lugares Santos, Edwiges contribuía com dinheiro para suas necessidades de viagem, sentindo-se assim participante das peregrinações e de seus méritos.

Certo dia demorou-se ela mais tempo nas orações, que fazia em seus aposentos. Mendigos, ao lado de fora, depois de longa espera passaram eles a lamentar, em alta voz: “hoje a senhora escondeu-se de nós“, e outras brandas manifestações de pedidos de esmolas. Uma das serviçais informou a Edwiges que os pobres estavam ali se queixando de que a duquesa não lhes dera ainda as esmolas, ao que ela determinou: “vá depressa, pegue o cofre onde está o dinheiro para os pobres, e dê a cada um conforme o Senhor a inspirar“.

Santa Edwiges adquiriu fama como protetora dos endividados porque, quando algumas pessoas estavam nessa situação (ou presos, não podendo pagar os débitos financeiros que haviam contraído), ela saldava as dívidas com seu próprio dinheiro, ou obtinha o perdão para os devedores.

Parte para o Paraíso

Edwiges, duquesa da Silésia e da Polônia, deitada em um pobre leito entregou sua alma a Deus em 1243, no dia 15 de outubro. Essa data, como é habitual na Igreja, passou a ser o dia de sua festividade litúrgica, a qual foi depois mudada para o dia seguinte (para dar lugar à comemoração de Santa Teresa de Ávila, padroeira dos professores). Tendo sempre sido humilde e dotada de grande perfeição em vida, Santa Edwiges terá se alegrado, no paraíso, em ver concedida a precedência a essa outra grande santa da constelação da Igreja.

 

Fonte: Vida de Santa Edwiges (Pe. Ivo Montanhese CSSR, Editora Santuário, 1884; Dix Mille Saints (les Bénédictines de Ramsgate, Brepols, 1991); Heavenly Friends (Rosalie Marie Levy, St. Paul Editions, 1984) In <http://www.acnsf.org.br/article/2196/Santa-Edwiges–o-conubio-da-vida-religiosa-com-a-vocacao-foi-a-matriz-de-seu-feliz-matrimonio.html>. Acesso em 21/09/2017 às 16:03h.

Quando foi escrito o Evangelho segundo Mateus?

Reproduzimos a seguir o texto retirado do site da Editora Cléofas.

Em síntese: O Prof. Carsten Peter Thiede, de Paderbom (Alemanha), julga ter identificado em 1994 três fragmentos papiráceos de Mateus 26, que ele data de meados do século I. Para chegar a tal datação, o pesquisador se serviu da paleografia: a escrita dos três fragmentos é semelhante à de outros manuscritos gregos da primeira metade do século I; caiu em desuso pouco depois do fim do governo de Pôncio Pilatos em 36. A conclusão do Prof. Thiede, caso seja verídica, vem confirmar que os Evangelhos fazem uso fiel à pregação de Jesus, pois foram redigidos a breve intervalo da Ascensão do Senhor (ao menos redigidos em parte). – O assunto despertou vivo debate entre os estudiosos.

A revista Time, em sua edição de 23/01/95, pág. 41, dá notícia da descoberta de três fragmentos gregos do Evangelho segundo Mateus, que têm suscitado debates, pois, como se diz, fazem recuar para mais perto de Jesus a data de redação dos Evangelhos. Donde o título do artigo: “A Step closer to Jesus? Na expert claims hard evidence that Matthew’s Gospel was written while eyewitnesses to Christ were alive (Um Passo mais Perto de Jesus. Um perto professa nítida evidência de que o Evangelho de Mateus foi escrito enquanto ainda viviam testemunhas oculares de Cristo”).

Nas páginas subsequentes vamos explanar o teor e o significado da notícia.

A DESCOBERTA

1. Estão em foco três pequenos fragmentos, do tamanho de selos do correio cada qual, apresentam dez linhas fragmentadas do capítulo 26 do Evangelho segundo S. Mateus. Foram descobertos pela primeira vez em Luxor (Egito) no ano de 1901 pelo capelão inglês que lá vivia, o Rev. Charles Huleatt. Foram doados à biblioteca do Magdalen College de Oxford (Inglaterra). O Ver. Huleatt morreu por ocasião do grande terremoto da Sicília em 1908, sem ter deixado informações sobre o pano de fundo de sua descoberta, que ele também não parece ter divulgado. O fato é que até 1953 nem sequer haviam sido publicadas fotografias desses fragmentos. Na Espanha existem dois outros fragmentos do mesmo documento, que, como se crê, contêm secções de Mateus cap. 3 e cap.5.

O fragmentos da biblioteca do Magdalen College foram inicialmente tidos como oriundos no ano 200 aproximadamente, como aliás 37 outros papiros do Novo Testamento, existentes no começo deste século, eram datados dos séculos II e III. Esta hipótese foi posta em xeque quando em 1994 o Prof. Carsten Peter Thiede, Diretor do Instituto de Pesquisas Básicas Epistemológicas, de Paderbom (Alemanha), visitou Oxford e examinou minuciosamente os três manuscritos da biblioteca do Magdalen College.

As conclusões do Prof. Thiede datavam esses fragmentos do século I ou, mais precisamente, do ano 70 ou até mesmo de anos anteriores a 70. O seu argumento principal era deduzido do tipo de letra utilizada pelo escritor, trata-se de caracteres verticais, comuns aos manuscritos gregos da primeira metade do século I; após os tempos de Cristo (27-30) tal tipo de letra começou a cair em desuso. Verdade é que o Prof. Thiede reconhece que a datação de manuscritos é coisa assaz difícil, o método do Carbono 14 não pôde ser aplicado no caso, porque destruiria os pequenos fragmentos em vez de os identificar. Thiede valeu-se então da paleografia comparativa, segundo a qual um manuscrito sem data pode ser datado pelo confronto com outros manuscritos de data segura (ou relativamente segura); no caso, o Prof. Thiede tomou como referenciais alguns manuscritos gregos descobertos em Qumran junto ao Mar Morto, em Pompei e Herculano (Itália) e que foram reconhecidos recentemente como textos do século I.

Segundo os princípios de sua teoria, o Prof. Thiede poderia datar o Evangelho segundo Mateus de poucos erros após o governo de Pôncio Pilatos, que terminou em 36. Preferiu, porém, uma data um pouco mais tardia. Até os nossos dias, pode-se dizer que um dos pontos cardeais para assinalar a data de redação de Mateus era a tese de que o evangelista supõe o Templo de Jerusalém destruído em 70 d.C.; todavia essa datação mesma não era unanimemente professada pelos críticos; Donald Hagner, por exemplo, professor do Fuller Seminary, da Califórnia, tende a uma data anterior a 70 após ter levado em conta exata todos os dizeres de Mateus relativos ao Templo.

As conclusões do Prof. Thiede suscitaram surpresa e celeuma. Caso sejam verídicas, confirmam, a novo título, a tese que afirma a fidelidade histórica dos Evangelhos; Mateus terá escrito quando ainda havia várias testemunhas oculares da vida e da pregação de Jesus.

2. Os pesquisadores se dividiram frente à descoberta feita pelo Prof. Thiede. Houve quem afirmasse ser ele “o homem que pode transformar nossa compreensão do Cristianismo” (assim o jornal TIMES de Londres). O Professor sueco Harald Riesenfeld, especialista do Novo Testamento, recomendou o método de trabalho do Prof. Thiede e exprimiu o receio de que os estudiosos da Bíblia se fechem à evidência, da descoberta por causa de suas premissas literárias, filológicas e históricas. Um linguista clássico, como o Prof. Urich Victor, da Humbold Universidade da Alemanha, observou com certa aspereza que as conclusões de Thiede põem em questão todo o sistema teológico existente. “This upsets the whole theological establishment”. Os teólogos liberais, acrescentou U. Victor, “puseram de lado, há muito tempo, todas as proposições que contradigam aos seus princípios, julgando serem tradições tardias, muito distanciadas de Jesus”.

Apesar do apoio de abatizados colegas, o Prof. Thiede tem encontrado certo ceticismo da parte de vários outros. O Prof. Graham Stanton, do King’s College, de Londres, declarou, com certo desdém, que o artigo de Thiede “não merece séria discussão”. O Prof. Paul Achtemeier, americano, editor do Harper’s Bible Dictionary, afirmou que “ficará muito surpreso se algum dia a hipótese de Thiede vier a ser reconhecida como fidedigna”.

3. Como se vê, o debate está aberto. Pode-se notar, porém, a evolução que se vem produzindo nos estudos bíblicos no século XIX os críticos julgavam que os Evangelhos foram redigidos tardiamente até o século II adentro. Todavia o progresso da paleografia trouxe à tona fragmentos de papiros que contribuíram para se diminuir o intervalo entre os evangelistas e Jesus; este passou a ser calculado não na base de premissas filosóficas, mas sim na base da evidência concreta do material escrito. Assim:

a) Na década de 1930 o pesquisador inglês C. H. Roberts descobriu o mais antigo dos manuscritos até então conhecido, era um pequeno fragmento de 8,9 cm por 5,8 cm; de aparência insignificante, foi comprado com outros papiros no Egito em 1920; numa das faces desse fragmento se encontra o texto de Jo 18, 31-33, e na outra face o de Jo 18, 37s. Está guardado no John Rylands Library de Manchester. Os papirólogos atribuíram as letras desse fragmento aos primeiros decênios do século II, mais precisamente ao ano de 125. As consequências deste achado foram de vasto alcance: o papiro fora encontrado no Egito, a mais de 1.000 km da região onde fora escrito o autógrafo de João; vê-se então que no Egito se lia o Evangelho de João poucos decênios após a morte do Apóstolo. Consequentemente os Evangelhos de Mt, Mc e Lc, anteriores ao de João, foram reconhecidos, como novo vigor, como obras da segunda metade do século I.

b) Em 1972 os estudos bíblicos foram sacudidos por nova descoberta: na Gruta 7 de Qumran, a N. O. do Mar Morto, foram encontrados pelo Pe. O’Callagliam S. J. papiros do Novo Testamento, entre os quais um fragmento de Marcos (6, 52-53), dito 7Q5; este foi atribuído ao ano de 50, conforme cuidadosos estudos do descobridor. Todavia esta conclusão foi tida como precipitada e inaceitável por outros especialistas.

c) O caso parecia encerrado pela crítica contestatária, quando em 1984 o professor C. P. Thiede, de Berlim, retomou os estudos, debruçando-se sobre os papiros originais em Jerusalém; em conclusão, confirmou a sentença de O’Callaghan; os resultados de suas pesquisas estão expostos no livro die ãlteste Evangelien-Handschrift? Das Markus-Fragment von Qumran und die Anfãnge der schriftichen Uerberlieferung des Neuen Testaments (Wuppertal 1986); na tradução italiana dessa obra, p. 42, lê-se:

“Assim resumindo, foram aduzidas todas as provas positivas em favor da exatidão da datação; além disto, foram eliminadas todas as possíveis objeções. Na base das regras do trabalho paleográfico e da crítica do texto, é certo que 7Q 5 é Mc 8,52-53, o mais antigo fragmento conservado de um texto do Novo Testamento, escrito por volta de 50, e certamente antes de 68”.

d) Além destes precedentes, em 1994 entrou no cenário da discussão também o material descoberto pelo Prof. C. P. Thiede.

Estes dados vão corroborando a tese de que os Evangelhos foram redigidos no século I. A redação não terá sido realizada em poucos meses, como ocorre com um livro moderno, mas haverá sido feita paulatinamente; devem ter surgido primeiramente “folhas volantes” que narravam parábolas, milagres, a Paixão de Jesus (…). Essas “folhas” terá sido agrupados em seqüência lógica, dando o livro que chamamos “Evangelhos”.

A HISTÓRIA DO TEXTO DE S. MATEUS

Nos últimos decênios tornou-se comum a seguinte concepção relativa ao texto de S. Mateus.

O primeiro evangelista a escrever terá sido Mateus, o cobrador de impostos, acostumado a redigir e calcular, dispondo suas idéias em ordem lógica. Terá escrito em aramaico na Palestina por volta de 50.

O texto de Mateus tinha muita autoridade. Foi levado para fora da Palestina. Terá servido de modelo ao
Evangelho de Marcos escrito em Roma na década de 60, e Marcos, por sua vez, terá servido de referencial a Lucas, que escreveu em Antioquia na década de 70.

O texto aramaico de Mateus teve de ser traduzido para o grego, pois esta era a língua usual do Império greco-romano. E Papias quem, por volta de 130, escreve:

“Mateus, por sua parte, pôs em ordem os lógia (dizeres) na língua hebraica, e cada um depois os traduziu (ou interpretou) como pôde (ver Eusébio, História da Igreja III 39,16).

O hebraico de que fala Papias, é, na realidade, o aramaico, língua corrente entre os judeus no tempo de Cristo. – Das várias traduções de Mateus, uma foi reconhecida como oficial e canônica. É a única que hoje temos, visto que as demais traduções se perderam. A data de origem do texto grego de Mateus hoje existente é o ano de 80 aproximadamente; não se trata de mera tradução, mas de um texto revisto e retocado para ficar mais claro do que o original.

Dentro desse esquema pergunta-se: onde colocar os três fragmentos de Mateus 26 identificados pelo Prof. Thiede? – É possível que se trate de uma das traduções gregas do texto aramaico que foram sendo feitas entre 50 e 80. Essas tradução haverá sido realizada no Egito ou em outro ponto do Império Romano? É difícil dizer algo segurança a tal propósito. Como quer que seja, a descoberta do Prof. Thiede (sujeita a ser discutida) corrobora a tese que o Evangelho segundo Mateus, ao menos em muitas de suas passagens mais antigas, vem a ser o eco primitivo da pregação dos Apóstolos e, consequentemente, do Senhor Jesus.

1 É de notar que existem cerca de 5.400 manuscritos antigos do Novo Testamento – fato único no setor da paleografia. As outras obras da antiguidade têm base em poucos e tardios manuscritos.

1 C.H. Roberts, Na Unpúblished Fragment of the Fourth Gospel in the John Rylands Library. Manchester 1935.

1 Há quem veja nessa coletânea de lógica (dizeres) de Jesus a tal fonte (Guelle) perdida, de que fala o artigo seguinte deste fascículo.

D. Estevão Bettencourt, osb
Revista “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
Nº 398 – Ano: 1995 – p. 290

Dom Henrique: “Salve, ó Cruz libertadora!”

Dom Henrique Soares da Costa é bispo de Palmares/PE e escreve regularmente nas redes sociais.

É uma festa antiga, a de amanhã, 14 de setembro.
Em 335, no dia 13 de setembro, foram dedicadas duas grandes basílicas, construídas pelo Imperador dos romanos, Constantino Magno: uma no Gólgota e outra, no Santo Sepulcro. No dia seguinte, hoje, foram expostos ao povo, com imensa piedade, os restos da cruz do Senhor. Daí a nossa festa hodierna: a Exaltação da Santa Cruz.

O mistério da cruz! Glória, suplício e tentação de escândalo para os cristãos; loucura inaceitável, insanidade deplorável para o mundo!

Na Sexta-feira Santa, durante a solene celebração da Paixão do Senhor, há um rito impressionante, comovente: o diácono, igreja adentro, traz uma cruz velada… e três vezes, descobrindo-a pouco a pouco, proclama, cantando: “Eis o lenho da cruz, do qual pendeu a salvação do mundo!” Frase estupenda, escandalosa, impressionante: no absurdo da cruz, na derrota da cruz, a Igreja proclama, que brotou a vida do mundo! Como pode ser? Naquela celebração, o povo, de joelhos, responde ao diácono: “Vinde, adoremos!” É belo, este rito; é comovente! Mas, como é difícil, como é dolorosa, na nossa vida e na vida do mundo, a realidade que ele exprime – o mistério da cruz, de uma humanidade crucificada, de um mundo crucificado!

A cruz de nosso Senhor Jesus Cristo está no centro da nossa fé, pois, por ela, o Senhor Jesus venceu a nossa morte e ingressou na vida de ressurreição. Por isso, São Paulo exclama: “Quanto a mim, não aconteça gloriar-me senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (Gl 6,14). Mas, o que é a cruz? É uma tragédia, é um sinal de derrota, é resultado de uma injustiça miserável, é silêncio de Deus, que parece esquecer a dor do Filho e se cala diante da maldade, do pecado e da morte. A cruz de Jesus, em si mesma, é um terrível escândalo… em si mesma, seria sinal que Deus não existe e, se existe, não liga para a dor humana, para a injustiça que massacra o inocente… Na cruz de Cristo está significada toda a cruz do mundo e da humanidade: a cruz do inocente que sofre, a cruz dos órfãos, dos que morrem na guerra, a cruz dos pobres, sem nome, sem vez nem voz… Na cruz do Senhor estão tantos povos e raças oprimidos, dizimados pela ganância e pelo ódio… Na cruz de Cristo está simbolizada toda dor, todo fracasso, toda solidão, todo peso do mundo… Na cruz do Senhor está tudo aquilo que nos deixa com uma pergunta presa na garganta: “Por que tanta dor, tanto sofrimento, tanta injustiça? Por que Deus se cala? Por que permite? Onde ele está?” Não pode compreender o mistério da cruz quem não se deixa atingir e questionar por estas perguntas, por estas dores, por estes prantos! Não pode proclamar o triunfo do Senhor quem não suportou o absurdo da cruz do Senhor! A cruz não é um ornamento, uma brincadeira; a cruz é um ícone, um símbolo, uma parábola impressionante e dolorosa! Na cruz está significado tudo aquilo que tanto nos apavora! E, no entanto, Jesus diz, no evangelho de hoje, que era necessário passar pela cruz: “Do mesmo modo que Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado…” (Jo 3,14). Palavra impressionante, confirmada após a ressurreição: “Não era necessário que o Filho sofresse tudo isso e assim entrasse na sua glória?” (Lc 24,26). Por que era necessário? Por que no caminho do Cristo e do cristão tem que estar a cruz, bendita e maldita? Por quê? E Para quê?

Para mostrar-nos até onde o pecado nos levou e até onde o amor de Deus está disposto a ir por nós.

Vivemos num mundo crucificado, somos uma humanidade crucificada, porque nos afastamos da vida, que é Deus. Como o povo de Israel no caminho do deserto, que perdeu a paciência e murmurou contra o Senhor (cf. 1a. leitura), assim a humanidade foi e vai se fechando para o Deus da vida e foi e vai encontrando a morte. Quantas serpentes venenosas mordem nossa existência! Mas, Deus não se cansou de nós: “Amou tanto o mundo que entregou o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crer, não morra, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). Era necessário! Era necessário mostrar a gravidade do nosso pecado, da nossa loucura de querer construir nossa existência sem Deus. Era necessário também mostrar até que ponto Deus nos leva a sério, até que ponto sofre conosco, até que ponto nos é solidário: ele não explica o sofrimento; silenciosamente, toma-o sobre os ombros, sofre conosco até o mais baixo da humilhação, da solidão e da dor: “Ele esvaziou-se de si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens. Encontrado com aspecto de homem, humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2,7). No seu Filho único e querido, o Pai se condói com nossa dor, “com-sofre” conosco, como Deus de “com-paixão”. Ninguém, contemplando a cruz, pode pensar que Deus é indiferente e frio ante o sofrimento do mundo. Ele não nos explica o sofrimento; toma-o sobre os ombros, silencioso e cheio de dolorido amor e piedade! Contemplar o mistério da cruz é levar a sério que existe dor e miséria no mundo; é deixar-se tocar por todo sofrimento humano… mas é também compreender que Deus assumiu tudo isso em Jesus crucificado e venceu tudo isso na ressurreição. Contemplar a cruz dá-nos a graça de nunca perder a esperança, mesmo diante dos maiores percalços. Quem contempla a cruz, não perde a confiança em Deus, não se desespera, não se despedaça: “Do mesmo modo que Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos aqueles que nele crerem (que o contemplarem), tenham a vida eterna” (Jo 3,16). A cruz, portanto, joga-nos na realidade da vida e do mundo – realidade crua…. mas, cheios de esperança, pois sabemos que Cristo fez dela, da cruz, um sinal de amor e ressurreição.

Por isso a cruz era necessária; por isso Paulo não queria gloriar-se a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo; por isso hoje louvamos o mistério da cruz; por isso nos dispomos a não só traçar o sinal da cruz sobre nós com devoção, mas a viver nossa cruz unidos a Cristo, invencíveis na esperança da ressurreição; por isso cantamos hoje com a Igreja:

“Do Rei avança o estandarte, / fulge o mistério da cruz, / onde por nós foi suspenso / o Autor da vida, Jesus.

Ó cruz feliz, dos teus braços / do mundo o preço pendeu; / balança foste do corpo / que ao duro inferno venceu!

Árvore esplêndida e bela, / de rubra púrpura ornada, / de os santos membros tocar / digna, só tu foste achada.

Salve, ó cruz, doce esperança, / concede aos réus remissão; / dá-nos o fruto da graça, / que floresceu na Paixão”.

Filhos de Deus, herdeiros da ressurreição

Um texto de Orígenes (185-243), sacerdote e um dos maiores teólogos do cristianismo.

No Último Dia, a morte será vencida. A ressurreição de Cristo, após o suplício da cruz, contém misteriosamente a ressurreição de todo o Corpo de Cristo.

Tal como o corpo visível de Cristo é crucificado, amortalhado e depois ressuscitado, assim o Corpo inteiro dos santos de Cristo é com Ele crucificado e já não vive em si mesmo.

Mas quando chegar a hora da ressurreição do verdadeiro Corpo de Cristo, do Seu Corpo total, então os membros de Cristo, hoje semelhantes a ossos secos, juntar-se-ão, articulação com articulação (Ez 37,1s), cada um encontrando o seu lugar e «todos juntos constituirão um homem perfeito à medida da plenitude do corpo de Cristo» (Ef 4,13).

Então a multidão de membros será um corpo, pois todos pertencem ao mesmo corpo (Rm 12,4).

Observação minha: Alguns reencarnacionistas juram que Orígenes ensinava a reencarnação. Por este pequeno texto já dá para ver o engano…

AUTORIA: Dom Henrique Soares, bispo de Palmares.

Dom José Antonio: “Simpósio Arquidiocesano no Ano Nacional Mariano”

Editorial extraído do Boletim Informativo de Setembro/2017.

Já há alguns anos realizamos em nossa Arquidiocese um encontro anual que chamamos Simpósio Arquidiocesano. É um encontro de toda a Igreja Arquidiocesana representada para, juntos buscarmos um maior aprofundamento no caminho comum em nossa vida eclesial e ação pastoral.

Foram realizados os Simpósios no Ano da Fé – proposto pelo Papa Bento XVI a toda a Igreja, no Ano da Esperança e no Ano da Caridade, como preparação para a celebração jubilar dos 100 anos da Arquidiocese de Fortaleza. O Simpósio Arquidiocesano também se realizou em sintonia com o Ano Jubilar da Misericórdia proposto pelo Papa Francisco. Foram oportunidades de nos aprofundar no momento eclesial com os fundamentos da Palavra de Deus, do Magistério Eclesial, da realidade eclesial que vivemos e na busca de um direcionamento comum de todas as nossas comunidades na vivência cristã como discípulos de Cristo e na ação pastoral como missionários do Evangelho.

Estamos vivendo o Ano Nacional Mariano, nos 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil e nos 100 anos das aparições de Nossa Senhora em Fátima. A CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – instituiu este ano Jubilar especial – Ano Nacional Mariano, acolhendo e celebrando o dom de Deus através da Mãe de Jesus e da Igreja como lição e cuidado de Deus pelo Seu Povo.

Neste contexto estaremos realizando neste final de mês de setembro o Simpósio Arquidiocesano no Ano Nacional Mariano para que, como bem se expressou o Papa Francisco em seu encontro com os bispos do Brasil, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro em 2013: Aparecida: chave de leitura para a missão da Igreja. Em Aparecida, Deus ofereceu ao Brasil a sua própria Mãe. Mas, em Aparecida, Deus deu também uma lição sobre Si mesmo, sobre o seu modo de ser e agir. Uma lição sobre a humildade que pertence a Deus como traço essencial e que está no DNA de Deus. Há algo de perene para aprender sobre Deus e sobre a Igreja, em Aparecida; um ensinamento, que nem a Igreja no Brasil nem o próprio Brasil devem esquecer.”

E partindo desta constatação apresentou aos bispos, e através deles a toda a Igreja no Brasil, uma visão e uma proposta de evangelização que tem Maria como modelo e ícone da Igreja.

O Simpósio se proporá a unir a todos, a colocar juntos na mesma posição, toda a Igreja na Arquidiocese de Fortaleza. Quer colher da Fé da Igreja e dos sinais de Deus a luz e a força para uma verdadeira devoção mariana, que leve a uma efetiva relação com Maria, além de uma superficial devoção, para maduro relacionamento com a Mãe de Cristo e da Igreja, que ensina com sua vida e ação, ajuda com seu materno cuidado, à própria Igreja de Cristo no seguimento do Senhor e na missão de levar a alegria do Evangelho a toda criatura.

Assim nos propõe a fazer o caminho juntos. “A comunhão é uma teia que deve ser tecida com paciência e perseverança, que vai gradualmente «aproximando os pontos» para permitir uma cobertura cada vez mais ampla e densa. Um cobertor só com poucos fios de lã não aquece.

É importante lembrar Aparecida, o método de congregar a diversidade; não tanto a diversidade de ideias para produzir um documento, mas a variedade de experiências de Deus para pôr em movimento uma dinâmica vital.” (Papa Francisco)

Ainda: “Aparecida falou de estado permanente de missão e da necessidade de uma conversão pastoral. Quanto à missão, há que lembrar que a urgência deriva de sua motivação interna, isto é, trata-se de transmitir uma herança, e, quanto ao método, é decisivo lembrar que uma herança sucede como na passagem do testemunho, do bastão, na corrida de estafeta: não se joga ao ar e quem consegue apanhá-lo tem sorte, e quem não consegue fica sem nada. Para transmitir a herança é preciso entregá-la pessoalmente, tocar a pessoa para quem você quer doar, transmitir essa herança.

Quanto à conversão pastoral, quero lembrar que «pastoral» nada mais é que o exercício da maternidade da Igreja. Ela gera, amamenta, faz crescer, corrige, alimenta, conduz pela mão… Por isso, faz falta uma Igreja capaz de redescobrir as entranhas maternas da misericórdia. Sem a misericórdia, poucas possibilidades temos hoje de inserir-nos em um mundo de «feridos», que têm necessidade de compreensão, de perdão, de amor.” (idem)

Finalmente: “E vocês, queridos Irmãos, não tenham medo de oferecer esta contribuição da Igreja que é para bem da sociedade inteira e de oferecer esta palavra «encarnada» também com o testemunho.” (idem)

Que este “estar juntos”, “simpósio”, nos ajude a acolher no dom que é a Mãe da Igreja, a graça de ser Igreja, dom de Deus para o mundo.

+ José Antonio Aparecido Tosi Marques
Arcebispo Metropolitano de Fortaleza

O sofrimento, por pe. Reginaldo Manzotti

Estamos às vésperas de celebrar a Festa da Exaltação da Santa Cruz (14/09) e também Nossa Senhora das Dores (15/09). Pode parecer estranho para quem não tem fé, exaltar um instrumento de tortura, mas quem já me acompanha por algum tempo, sabe que não é a cruz em si, mas sim o ato redentor, o sangue derramado de Nosso Senhor Jesus Cristo, para nossa salvação.

E eu gostaria de aproveitar essas datas para refletirmos sobre o sofrimento. Ninguém gosta de sofrer, mas muitas vezes não temos escolha. Infelizmente, a dor, o sofrimento e as doenças fazem parte da condição humana. Deus não manda sofrimentos e tribulações, pois Ele é o Sumo bem, a plenitude do amor e um Pai amoroso que nos quer felizes. Mas, então por que o sofrimento existe?

Esta pergunta, queridos filhos e filhas, faz parte dos mistérios de Deus, creio que na eternidade, teremos essas respostas, mas enquanto isso, nos cabe contemplar a Cruz de Cristo para, ao contemplá-la, mergulhar neste entendimento da dor e do sofrimento. Ao olharmos para o sofrimento de Jesus na Cruz, somos chamados a contemplar também a nossa dor.

A dor é pedagógica. Ela nos ensina. Todos querem seguir ao Senhor Glorioso. Poucos são aqueles que querem seguir ao Senhor Crucificado. Diante de uma dor, nossa primeira reação é a de negar este sofrimento.

E, logo em seguida, o segundo passo é o do “por quê”. Os nossos “por quês” devem nos levar ao “para que”. É preciso descobrir, dentro deste mistério que é o sofrimento humano, a razão pela qual enfrentamos determinada dor. É preciso aceitar a dor. Mas não de uma forma passiva.

Jesus assumiu a nossa condição humana em tudo, exceto no pecado. E em Cristo conseguimos redimensionar esta experiência dolorosa do sofrimento na própria vida. O sofrimento nos amadurece.

Diante do sofrimento somos trabalhados por Deus em nos abrirmos ao próximo. Quantos casamentos não teriam terminado, quantos relacionamentos entre pais e filhos não estariam em crise, se estivéssemos mais atentos às fragilidades dos outros. E isto se adquire como um fruto que vem da contemplação de Cristo na Cruz. A liberdade mal usada provoca dor, sofrimento.

Existem muitas coisas em nossas vidas que ficarão sem respostas. Morreremos sem saber e entender os tais “por quês”! Por isso, o importante é o “para que” deste sofrimento. Jesus passou pelo Calvário e a gente se pergunta: “Para que Jesus morreu na Cruz?” Ele morreu para revelar esta verdade: o Pai nos ama!

Na Cruz, o inimigo é desmascarado. Jesus se entregou na Cruz por todos. Os viciados, as prostitutas, os embriagados, enfim, Jesus morreu por todos, e não apenas por alguns. A cruz liberta.

Com muita humildade, peço oração pela missão nos Estados Unidos que inicio nesta quinta-feira, dia 14, que todo esforço seja frutuoso e que Jesus, nas suas Santas Chagas, seja conhecido e amado.

Deus abençoe,
Padre Reginaldo Manzotti.

 

FONTE: Boletim Informativo Padre Reginaldo Manzotti enviado via e-mail em 13/09/2017.